Não negociem nossa alma!
mar04

Não negociem nossa alma!

Amigos corais, não sei quem negocia (ou negociou) os jogos do Santa Cruz com a Arena Pernambuco. Não sei quem é consultado. Não sei se o tal “Conselho Deliberativo” delibera alguma coisa. Não sei quanto entra (ou entrou) de dinheiro a cada jogo – e para onde vai (ou foi)  este dinheiro. Não sei de nada sobre essa estranha forma de tratar nossa casa, que é o Arrudão, um dos maiores estádios particulares do mundo. O que está acontecendo, amigos, é que estão negociando nossa alma. Quando saio de casa, para ir ao Arruda, saio rindo. Sou tomado de uma alegria particular, só minha, como o sujeito que recebe uma declaração de amor da mulher que ama, antes de sair de casa. Sei que vou encontrar a minha torcida. O meu povo. A massa coral, tão múltipla e indecifrável, quanto bela. Tomo uma latinha de cerveja aqui em dona Nita, na frente do prédio, vou andando até o Parque 13 de Maio, pego um ônibus na Cruz-Cabugá – que já vem lotado de corais -, e em dez, quinze minutos, estou na porta do Arruda. No entorno, barracas de cerveja, espetinho esfumaçado, macaxeira com charque, latão, latinha, promoção, aqueles sandubas misteriosos que o sujeito só come na beira do Arruda, ônibus passando, carro chegando, bandeiras, bandeirolas, casas com gente na calçada, tomando umas, escutando “Santa Cruz/Santa Cruz/Junta mais essa vitória…” Ouso dizer que a Zona Norte do Recife, uma das mais povoadas da cidade, muda todo o seu cotidiano. Os morros descem. A geografia se modifica. Uma nuvem de paixão e poesia ronda e arranca as pessoas de casa.  É uma procissão de apaixonados. O Arruda, por sinal, pode ser visto de vários bairros, de muito longe. Encontro com os amigos, biritas, enfrento a complicada entrada no estádio. Vou por debaixo das arquibancadas, aquele corredor que lembra um “túnel da torcida”, que vai mesmo entrar em campo, até que chego às arquibancadas e um portal se abre. Está lá, o graminha verde coral, o cheiro da torcida, a nossa casa. As figuras que conhecemos, mesmo sem saber o nome direito. A certeza de que, naquele lugar, muitas glórias aconteceram, muitos craques passaram, gerações se abraçaram, riram, choraram, se emocionaram, cantaram. Ali, nossa felicidade se multiplica, e nossa dor é amparada. Agora, temos esta novidade, esta petulância – os atravessadores da nossa alma. Somos obrigados a deixar nossa casa para assistir jogos numa “Arena” asséptica, fria, distante, com jeito de primeiro mundo, fruto de uma soberba do poder. Um estádio distante de tudo, construído para as elites, que sonham com os 90 minutos numa cadeira confortável. Um estádio que provoca, no torcedor coral, um sentimento trágico...

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O Santa, na “Bodega do Abel”
out06

O Santa, na “Bodega do Abel”

Na sexta-feira passada, minhas obrigações clubísticas diziam que eu deveria estar na Arena, para ver Santa x Boa Esporte, às 19h40. Mas no meio do caminho tinha: engarrafamento, horário de pico, a Abdias de Carvalho e outros milhares de carros. Como não tenho carro, não queria levar minha impaciência aos limites. Resolvi assistir na Bodega do Abel, aconchegante reduto coral, na rua das Creoulas, defronte àquela farmácia da rua das Pernambucanas. Desde a primeira vez que entrei lá, meio ao acaso, me tornei assíduo. Até paguei um “Clube do Whisky” para meu cunhado coral, o senhor Pedoca, que mora ao lado, mas ele anda mal do juízo: Não foi bebericar seu presente. O resultado foi que, a cada visita, eu beliscava umas doses. Na sexta, eu avisei que iria acabar o presente. Ele ficou preocupado. Marquei com Gerrá e Inácio, mas, como sempre, a fuleiragem foi grande. Gerrá enrolou tanto que perdeu o primeiro tempo em casa. O Abel, dono da bodega, é um português invocado, Santa Cruz desde que os portugueses cá chegaram e decretaram: “Pois, pois, esta é a Terra do Santa Cruz”. O Caminha errou e digitou “Terra de Santa Cruz”. Mudaram para “Brasil” por pirraça. A clientela é majoritariamente coral. Até perguntaram pelos livros da “Trilogia das Cores”. Breve, abriremos uma filial do Blog do Santinha lá, para vender os livros. Bem, mas o fato é que bastou o jogo começar, o uísque a deslizar manso, que o Santa desarnou e começou a jogar outro futebol. Alguns rubronegros secavam ardorosamente, mas Abel deu logo seu recado-esporro: “Eu adoro quando esses rubronegros fiquem secando, porque essa energia passa para os jogadores, e ele jogam é mais bola”. Pedoca chegou quando eu bebia a última dose. Quase chora. O jeito foi dar outro presente, desta vez um “Cavalo Branco”. Esse Santa Cruz me deixa um cara bem mais legal, todo mundo diz isso, até minha mulher. Ao lado, vários corais com os olhos brilhando. Três a zero no primeiro tempo, com o time totalmente mudado, mordendo a bola, marcando, tocando, fazendo a festa da massa. O lirismo logo começou a se espalhar. “Ah, o Santa Cruz, quando ganha e joga bem, deixa a humanidade feliz. A humanidade inteira fica muito mais feliz quando o Santa ganha”, repetia um senhor, na mesa ao lado. Todos concordavam. Pedimos espetinho de picanha, com cebola e vinagrete. Na medida. Outra dose. Hummm… Que falta de saudade eu sentia da Arena… O segundo tempo foi só para manter o resultado, não forçar a barra. Eu e Pedoca botamos todos os papos em dia, bebemos nossas doses, rimos, confirmamos que é um ótimo...

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Todos com o cloro

Que Todos com a Nota que nada. As vitórias dos últimos anos suscitaram (gostaram do verbo?) uma demanda outrora adormecida pelas bandas da avenida Beberibe: o mergulho dos campeões! Se a tendência continuar, a diretoria do Santa Cruz terá de iniciar o inédito programa Todos com o Cloro para que os tricolores mais reticentes também se joguem na piscina da sede como os hindus caem de cabeça no Ganges. A ideia é do artista plástico Breno Melo que, depois de concluir a revolucionária ilustração da camisa da Minha Cobra 2014, mandou o desenho acima. Segundo ele, o processo seria simples: na compra de dois ingressos para um jogo decisivo, o sujeito receberia um tablete de cloro. No dia da partida, bastaria levar a pastilha no bolso e mergulhar de roupa e tudo na piscina após o título ou acesso. Depois é deixar o cloro na água, facilitando o trabalho da turma da limpeza na segunda-feira. Fácil, sem burocracia, sem reserva pelo telefone, sem lenga-lenga. Assim, todos poderiam tomar o banho que purifica dos males dos anos 1990 e dos rebaixamentos. ***** Faltam nove dias (nine days, segundo o editor Pedro Moura) para o lançamento do 2º volume da Trilogia das Cores (A emoção é branca), no bar Mamulengo da praça do Arsenal, às 18h30min do dia 12 de dezembro (na outra quinta-feira). Enquanto a tricolozada enche a lata, Gerrá, Inácio e Samarone vão entortar a munheca de tanto dar autógrafos.  Na mesma ocasião será apresentada a camisa da Troça Carnavalesca Mística Ofídica Etílica e Escrota Minha Cobra para o tríduo momesco de 2014. Se a malharia correr, já vai ter para...

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A sarna somos nós

Nada de extraordinário me aconteceu no dia em que subimos. Preparei um arrumadinho, bebi poucas cervejas em companhia de uns poucos amigos e da família, a chegada ao estádio coincidiu com a do ônibus coral, enfim, nada que mereça um texto. Apenas os procedimentos de rotina para quem vai se estourar de emoção seguida da alegria comum a todos. E mesmo se testemunhasse feitos curiosos ou apocalípticos,  provavelmente não os teria transformado em prosa. Como observador, não valho grandes coisas. Tudo pode acontecer nas minhas fuças que não estou nem aí. Para transformar pequenos incidentes em crônicas saborosas, Samarone faz isso mais e melhor. Para botar sacanagem no meio, Gerrá é o titular, com a camisa 10 e braçadeira de capitão. O que eu sou mesmo é chato. Muito chato. Insuportável. Não deixo perco a chance de passar na cara de quem quer que seja, seja lá o que for. E, desde os dias que antecederam a partida dos 60 mil contra o Betim, tenho percebido um fato incontestável: o Santa Cruz Futebol Clube está merecendo como nunca o apelido que lhe colocaram os bicolores na intenção de ofender. Somos a sarna. Uma sarna irritante, insistente, de esfolar a pele. Uma sarna que tomou conta da cidade. Primeiros fomos os próprios corais que espalharam uma energia que vou chamar de eletricidade emocional, um elemento que não se via, mas estava em todas as conversas, antecedendo sérias reuniões de negócios, aflorando nos encontros ocasionais no meio da rua: “E o Santa, sobe?”. Primeiro se perguntava isso para os tricolores, depois esse era o tema inicial de qualquer conversa, em qualquer situação. O comichão estava em todo canto: o governador, articulando sua candidatura a presidente começava assim os cochichos sigilosos. Era isso que o gari, antes de pegar a vassoura e o balde, perguntava ao dono do fiteiro. Esse era o papo entre o cobrador e o motorista. Nas rádios. No salão de cabelereiro chic do Espinheiro. No boteco do Vasco. No posto de saúde. Na praia. Santa Cruz e sua torcida, o assunto da cidade. Alvirrubros e rubro-negros se coçaram. De vontade de ir ao jogo. De inveja de uma nação que envergou, mas não quebrou. De admiração, como a testemunhar um soldado voltar do inferno da batalha repleto de cicatrizes, porém vivo e sabendo onde não botar o pé, como escreveu um colunista da revista Trivela. Sem forçar muito a memória, conheço quatro alvirrubros que foram ao Arruda ver por dentro uma torcida de futebol. Pertinho de mim, nas sociais, estava Gustavo Krause, ex-governador, ex-prefeito e ex-não-sei-o-quê do clube de coração de todo ex-aristocrata. No facebook, um rubro-negro escreveu em...

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Festa no morro? Ainda não.

Reinaldo da Galeria convidou Robson Sena. Robson convidou Gerrá, que me convidou. Então convidei Samarone, que farrapou. Foi só o jogo acabar e lá fomos nós para o galpão da Galeria do Ritmo, a escola de samba de um dos melhores lugares do Recife, o Morro da Conceição, pau-a-pau com a Bomba do Hemetério, Poço da Panela e Brasília Teimosa. Tricolor não precisa de motivos para subir o Morro, mas nós tínhamos um. E bem forte: acompanhar a escolha do samba-enredo da escola que, no próximo carnaval, vai homenagear o centenário coral. Programa melhor não há para uma noite logo após uma vitória importante. Foi só descer do ônibus e pescar o diálogo entre dois tricolores devidamente caracterizados e um sujeito todo sorridente, metido a piadista: – Tão alegrezinhos hoje porque ganharam uma, mas tomem cuidado, viu, sábado que vem é dia de Finados. – O jogo vai ser domingo, otário. Bonito pra tua cara. Deu vontade de dizer, mas fiquei na minha e fui passando. Não sou do morro, tava ali emprestado. Na frente da Galeria, Robson era o amostramento em pessoa na iminência de representar a Minha Cobra no corpo de jurados. Logo ele, que entende tanto de carnaval, mas tão pouco de samba. Por mim, fiquei mais interessado em ser escalado para ser jurado do evento do sábado que vem, a noite da Mini-Saia. A dona da menor mini-saia vai levar 150 contos para casa. Aceitaria o convite para fazer um julgamento técnico e isento. Gerrá também topou, demonstrando disponibilidade para as causas populares e um desprendimento ímpar. É bem verdade que as nossas respectivas senhoras chiaram um pouco e partiram para ameaças, as mais vulgares possíveis, aliás. Mesmo assim, continuamos a espera do convite. Ainda dá para reorganizar a agenda para sábado. O galpão é quente todo. Cobertura de zinco triplicando as consequências do efeito estufa e do, calor humano. Desde que botamos o pé na escola sabíamos que estávamos entre iguais: um sujeito à paisana bateu com a mão espalmada no escudo do meu uniforme cobra coral, distribuindo sementes de poesia: “Não estou assim, mas eu sou assim”. Depois foi até Gerrá e repetiu o que havia me dito. A galeria é lugar de gente como este tricolor afetuoso que nos fez sentir em casa. E de gente como Naná Santana, mestre de bateria aposentado e que agora sobrevive dando oficinas de percussão para crianças. Com seu pisante de pele de cobra e o passo macio de quem entende do riscado, o sujeito é um bamba. Também estava lá seu Nininho do Pandeiro, compositor do samba vencedor que diz “Eterno supercampeão guerreiro / sinônimo de...

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