Polícia para quem?
nov11

Polícia para quem?

Não é indignação o que estou sentindo com o acesso da torcida no famoso Portão 9. É a mais pura raiva mesmo. Depois alguém escreve sobre a importante vitória. Que encontre inspiração. Eram 20h quando cheguei com meu ingresso para ver um jogo decisivo do meu time. Ou seja, estávamos a meia hora do início da partida. Havia um caos completo. A rua estava numa escuridão quase completa. Cenário perfeito para confusão, roubos, brigas. Falam rios das “Torcidas Organizadas”, mas ninguém lembra que temos uma “Polícia Desorganizada”, incapaz de organizar o acesso de pessoas com ingresso a um evento esportivo. A cada minuto, a multidão se amontoava, porque ninguém saia do canto. Ficamos parados, por vários minutos, até que saí e fui para perto da entrada, ver o que estava acontecendo. Os PMs da Tropa de Choque estavam retirando todas as barras de ferro que botam, em um jogo ou outro, para organizar a fila, e jogando na calçada! Tudo isso no breu. Era inevitável que, quando abrissem para a massa entrar, haveria mais confusão. Minha sorte foi ter dado uma de jornalista, para ver a merda toda. No meio desse caos completo, uma quantidade imensa de carros, no meio do povo que estava do lado, esperando algo se resolver. Quando a PM liberou a massa, foi correria, gente caindo, chorando. “Painho, painho!”, gritou um jovem, ao ver seu pai quase sendo esmagado. O homem se levantou e saiu correndo. Foi assim que a torcida do Santa entrou ontem, nas arquibancadas. Tropeçando, correndo, esbaforida, tentando se proteger. Uma manada. Cada um tentando escapar de uma queda. Isso implica estudo, planejamento, previsão de torcida, reconhecimento do local. Eu vivo batendo nesta tecla. A PM só vai trabalhar de forma decente e ordenada quando criar um batalhão não de CHOQUE, mas de acesso e acompanhamento de eventos esportivos. Consegui entrar, porque no meio disso tudo, um sujeito afastou a barra de ferro e algumas pessoas conseguiram passar. Quando passamos pelas catracas, parecíamos uns refugiados que tinham pisado em um solo seguro. Teve gente entrando com 15, 20 minutos depois do jogo, e repetindo: “Tem meio mundo de gente do lado de fora”. Na saída do estádio, vocês sabem o que mais atrapalhava o fluxo da massa coral: a escuridão e os vários ônibus da PM. Ou seja – o único lugar do entorno do Arruda que não poderia estar escuro, era na saída do Portão 9. O único lugar que vários ônibus não deveriam estar, era junto da saída do Portão 9. Sei que nem o governador, nem o comandante da PM, nem ninguém vai fazer porra nenhuma. Torço para que...

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A alma de um time em um gesto
nov10

A alma de um time em um gesto

Amigos corais, o futebol tem lances que são eternos. Lances e gestos. Poderia passar a manhã lembrando alguns. Vou a um dos mais inesquecíveis. Final da Copa de 1958, na Suécia. O Brasileiro jamais tocara na taça Jules Rimet. Final conta os donos da casa. Aos quatro minutos e pouco, gol da Suécia. Quem não gelou, lembrando da tragédia de 1958. Um jogador brasileiro que não identifico pega a pelota e Didi sai do meio de campo para buscá-la. Ele vai com ela segurando com a mão esquerda, altivo, dono de si. Vai caminhando mansamente, quase assobiando algum chorinho, como quem diz aos demais jogadores – “calma, que o jogo nem começou direito, vamos virar essa partida já já e dar olé nesses Zé Ruela”. Resultado: apresentação de gala do Brasil. Vitória por 5 x 2 e o primeiro título mundial. Não foi um lance, foi um gesto. Mas não posso me estender. Já é final início da tarde e a cidade do Recife respira as três cores corais. Os telefonemas se multiplicam, o zap-zap está em tempo de entrar em colapso. Twitter, facebook estão feito a gora, gritos para chamar o vizinho para tomar umas, enfim. Tudo caminha para a Avenida Beberibe, logo mais à noite. São milhões de combinações de horários, lugares, botecos, barracas, caronas, desculpas no trabalho para sair mais cedo, além dos efeitos colaterais, como a absoluta falta de concentração para abotoar até a camisa, nervosismo para botar açucar no café ou para discutir qualquer coisa lógica. Se sua mão já está tremendo, não se preocupe, você é absolutamente normal, torce mesmo pelo Santa. E no meio deste frenesi, um lance não me sai da memória. O jogador do Bahia se prepara para bater a falta – perigosíssima, por sinal. Nosso zagueiro, Alemão, está na barreira. Ele sabe que o lance pode ser fatal para o Santa, precisa fazer algo. Então ele resolve provocar. Começa a bater com a mão no peito esquerdo, olhando fixamente para o jogador do Bahia. Pela TV, dá para ver ele gritar: “Chuta aqui, é! Aqui!” Ele fica repetindo com força, e batendo no escudo coral. Parece tomado. Não tira o olho dos olhos do adversário. Está em transe. Ao seu lado, está nosso artilheiro Grafite, um mero coadjuvante. Alemão segue aos berros. Foram alguns segundos, mas me pareceram intermináveis minutos. “Aqui! Chuta aqui!” Ninguém, em sã consciência, quer levar uma bicuda no peito. Quem joga pelada, sabe que isso dói pacas. Mas Alemão, ali, preferia sentir a dor no corpo, do que sentir a dor da massa coral, em caso de um gol baiano. Na hora me ocorreu estar...

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A batalha da PM contra a festa nas arquibancadas do Arruda (Parte 1)
out03

A batalha da PM contra a festa nas arquibancadas do Arruda (Parte 1)

Amigos corais, meu lugar sagrado na arquibancada, junto ao escudo do Mais Querido estava me incomodando há algum tempo. Não sei o que era, mas uma espécie de impaciência com a morgação. Em muitos jogos, eu sentia falta da vibração da torcida, de músicas para empurrar o time. Via aquela multidão da Inferno Coral calada, ficava invocado, começava a puxar um coro que ninguém seguia. Como diz o Tom Zé, “Que porra!” Antes de começar aquele jogaço contra o Bragantino, tomei uma decisão fundamental – fui para o lado esquerdo do estádio, onde estavam os bravos torcedores do “Portão 10 – Avante Santa Cruz”. Vou ver se o negócio ali é mais animado, foi o que pensei. Era o único local da arquiba que tinha algumas bandeiras, música (um sujeito virado num trompete), bandeirolas e o principal – um bando de malucos que cantava e pulava o jogo inteiro. Isso mesmo, camaradas. Durante 90 minutos os caras não aliviam. Fiquei logo amigo do Lucas Souza, um camarada bem novo, sorriso largo, que ficava se mexendo pra todo lado, cantando, vibrando. Mas o que me espantava era a espontaneidade. Ali, o maestro era a paixão coral. Em vários momentos, a turma da “Portão 10” começava a puxar uma música e daqui a pouco a arquibancada inteira, sociais, estavam seguindo o mesmo canto. De arrepiar. Foi graças a esse encontro, e aos papos com Pablo, que pude entender a luta desta pequena e raçuda torcida, para levar alegria e festa ao Arruda. Breve história Resumindo tudo, a Portão 10 é uma torcida organizada do estilo barra brava (como se vê nos principais estádios da América do Sul, onde a galera canta antes, durante e depois do jogo, seja qual for o resultado). Nasceu em 2007 com o nome de “Avante Santa”. Passou por inúmeras dificuldades, parou de funcionar em 2012 por “vários problemas”, inclusive com a “principal organizada do clube”, que não vem ao caso destrinchar aqui, mas acabou firmando seu espaço, crescendo e ganhando a simpatia da massa coral. A história é bem bacana, inclusive pela consciência que os caras têm de que o Santa é um clube popular, e não pode se afastar nunca de suas origens. Os caras têm pulmões de madeira. Também levam bandeirolas (coisa antiga nos estádios), além de bandeiras com frases voltadas para a cultura do clube. Recentemente, começaram a fazer paródias, como era costume da gloriosa e agora exilada Sanfona Coral. “Seguimos na luta pelo diferente para trazer novamente nossa antiga torcida”, diz Pablo. Perdão pelo trocadilho, Pablo, mas é uma torcida sem sofrência. Tudo muito bom e bonito, é o que o leitor...

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Sábado coral

Amigos corais, imaginemos a cena ideal. É sábado, as chuvas deram uma pausinha, o dia está exageradamente belo. Você tem saúde, algum dinheiro no bolso, e, tirando os problemas normais da vida, você não está vivendo nenhum drama espetacular. Nenhuma tragédia faz parte deste dia. E às 16h30, o Santa Cruz joga, em pleno Arruda. Acrescentemos um ovo de codorna ao seu caldinho de feijoada – você vive no Recife, ou próximo ao Recife. E pode ir ao jogo. E vai. E sorri, com uma certa vaidade, ao saber que o estádio do seu clube não é uma opulenta e desalmada Arena, a vinte ou trinta quilômetros de sua casa. Seu estádio é o Arruda, onde certamente seu pai ou seus irmãos ou parte dos seus amigos sorriu, sofreu, chorou, amou. Cada pedaço daquele colossso tem cheiro, memória, vida. Seu estádio está encravado na Zona Norte do Recife, a mais bela da cidade, com seus morros e sua história, em plena Avenida Beberibe, não na Avenida Deus é Fiel (endereço da Arena Pernambuco). Se você torce pelo Santa e não agradece por esta combinação de fatos ideais, me perdoe, meu amigo, mas você está sendo ingrato com a vida. E ingratidão cobra um preço enorme. Como não sou chegado a ingratidão, compartilho meu sábado coral. Saí de casa às 14h em ponto. Mal chego ao Parque 13 de Maio, passa um Avenida Norte/Macaxeira. A cobradora me dá o troco saboreando uma delicosa “quentinha”. O ônibus quase não para e rapidinho estamos na encruzilhada. Resolvo descer, para tomar alguma cerva com algum amigo, já que marquei com Esequias às 15h. Dou uma passeada, tem um trio de forró, aquela agitação, eu só ficaria se fosse a finada Sanfona Coral. Debreei. Fiz o contorno, voltei. Gosto de caminhar, mas eu só pensava na gelada. Precisava tomar uma atitude. Passa um Dois Unidos/Prefeitura. Mal entrou no veículo, passam uns batedores a todo vapor, como se tivessem escoltando algo muito importante, um rei da Inglaterra, o Papa Francisco ou aquela mulher da propaganda da Itaipava, a Verão. Era mais que isso – a escolta do ônibus coral, com os atletas e comissão técnica, patrimônio da torcida mais apaixonada do Brasil. “Esse ônibus ainda é o velho. O novo vai chagar mais tarde, com Grafite dentro”, me disse o motorista, com um riso de satisfação. Ele, por sinal, está mais bem informado que eu. Quando o ônibus passou defronte ao bar Dragão, pedi para dar uma paradinha. “Desce por aqui mesmo”, disse o motorista. Desci pela frente. Quem disse que neste mundo não há cortesia? Ninguém conhecido de novo. Porra, onde estão meus amigos...

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Não negociem nossa alma!
mar04

Não negociem nossa alma!

Amigos corais, não sei quem negocia (ou negociou) os jogos do Santa Cruz com a Arena Pernambuco. Não sei quem é consultado. Não sei se o tal “Conselho Deliberativo” delibera alguma coisa. Não sei quanto entra (ou entrou) de dinheiro a cada jogo – e para onde vai (ou foi)  este dinheiro. Não sei de nada sobre essa estranha forma de tratar nossa casa, que é o Arrudão, um dos maiores estádios particulares do mundo. O que está acontecendo, amigos, é que estão negociando nossa alma. Quando saio de casa, para ir ao Arruda, saio rindo. Sou tomado de uma alegria particular, só minha, como o sujeito que recebe uma declaração de amor da mulher que ama, antes de sair de casa. Sei que vou encontrar a minha torcida. O meu povo. A massa coral, tão múltipla e indecifrável, quanto bela. Tomo uma latinha de cerveja aqui em dona Nita, na frente do prédio, vou andando até o Parque 13 de Maio, pego um ônibus na Cruz-Cabugá – que já vem lotado de corais -, e em dez, quinze minutos, estou na porta do Arruda. No entorno, barracas de cerveja, espetinho esfumaçado, macaxeira com charque, latão, latinha, promoção, aqueles sandubas misteriosos que o sujeito só come na beira do Arruda, ônibus passando, carro chegando, bandeiras, bandeirolas, casas com gente na calçada, tomando umas, escutando “Santa Cruz/Santa Cruz/Junta mais essa vitória…” Ouso dizer que a Zona Norte do Recife, uma das mais povoadas da cidade, muda todo o seu cotidiano. Os morros descem. A geografia se modifica. Uma nuvem de paixão e poesia ronda e arranca as pessoas de casa.  É uma procissão de apaixonados. O Arruda, por sinal, pode ser visto de vários bairros, de muito longe. Encontro com os amigos, biritas, enfrento a complicada entrada no estádio. Vou por debaixo das arquibancadas, aquele corredor que lembra um “túnel da torcida”, que vai mesmo entrar em campo, até que chego às arquibancadas e um portal se abre. Está lá, o graminha verde coral, o cheiro da torcida, a nossa casa. As figuras que conhecemos, mesmo sem saber o nome direito. A certeza de que, naquele lugar, muitas glórias aconteceram, muitos craques passaram, gerações se abraçaram, riram, choraram, se emocionaram, cantaram. Ali, nossa felicidade se multiplica, e nossa dor é amparada. Agora, temos esta novidade, esta petulância – os atravessadores da nossa alma. Somos obrigados a deixar nossa casa para assistir jogos numa “Arena” asséptica, fria, distante, com jeito de primeiro mundo, fruto de uma soberba do poder. Um estádio distante de tudo, construído para as elites, que sonham com os 90 minutos numa cadeira confortável. Um estádio que provoca, no torcedor coral, um sentimento trágico...

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