Precisamos de um nome pra chamar
maio26

Precisamos de um nome pra chamar

Quando saímos do calvário e subimos para série B, aquela partida inesquecível contra o Betim, quem nos salvou de um infarto foi o grito “Ah! É Caça-Rato”. Meu coração batia a mil por hora, minhas mãos suavam frio. Num último suspiro de esperança, a torcida se transformou numa única voz e pediu o Caça. E Caça-Rato nos deu uma das maiores alegrias de todos os tempos. Quantas e quantas vezes, na hora do pega-pra-capar, quando a gente tava levando aquele sufoco, a turma gritava “Ah! É Renatinho”. Renatinho, o nosso pirralha,  vinha correndo e a torcida transpirava a última gota de otimismo. As arquibancadas se animavam e empurrava o time. Tinha também o General. O jogo tava ali para terminar, a torcida quase tendo um ataque de nervos. De repente o treinador lembrava de Bruno Moraes. Quando Catatau corria e tocava no General, a massa soltava o grito: Acabô o caô! O General chegô! O General chegô! Bruno Moraes entrava pilhado e por várias vezes nos salvou de voltar para casa de mal humor. Todo time que ser preza, tem que ter um ídolo no banco de reservas. Aquele cara que a torcida acredita que dá sorte. Que vai entrar e vai mudar a partida. Uma espécie de talismã. Aquele atleta que o torcedor no auge da raiva, da angustia e do pessimismo, inconscientemente recorre ao nome dele. Quem não já ouviu do amigo que está ao lado: tá na hora de botar fulano. Ou então: tem que botar beltrano, isso é jogo pra ele. Até em time de pelada, é assim. Na minha época de adolescente, Pé de Bomba era o reserva de ouro do time do bairro em que eu morava. Forte e entroncado, era dono de um futebol medíocre e de pouca inteligência. Mas Pé tinha uma qualidade: seu chute era fortíssimo. Além disso, não levava desaforo pra casa. Nos torneios, quando a derrota estava na nossa porta, a gente começava a pedir a entrada de Pé de Bomba. Em ritmo de funk, a rapaziada cantava: “É-é-é-é-é! É Pé de Bomba”. Até no time de futebol de mesa, todo mundo tem o botão da sorte. Que fica guardado e só entra quando precisa decidir o jogo. Eu tinha Azulão. De acrílico, Azulão era um exímio batedor de falta. Diziam que ele batia falta melhor do que Zico. Eu sempre deixava Azula guardado dentro da flanela, para colocá-lo na ocasião certa. Por várias vezes, Azulão entrou e, fazendo gol ou não, me deu sorte e garantiu minha vitória. Nesse time atual do Santa Cruz, quando estamos levando sufoco, a gente olha pro banco e não vê ninguém...

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Victory, my friends.
maio21

Victory, my friends.

Meus amigos tricolores, o título dessa crônica está em inglês não por arrogância ou pedantismo. Muito pelo contrário. O Santa Cruz é internacional – melhor, a paixão pelo Santinha não tem fronteiras. Irei me explicar. Fazia muito tempo – mas muito tempo mesmo – que eu não ia para as sociais. Meu pai, que nasceu em Cajueiro e passou metade da vida em Casa Amarela, sempre me levava para as arquibancadas, para o povão que é a essência do Mais Querido. Mas nesse sábado, não encontrei nenhum amigo. Sama, Gerrá e Esequias não consegui encontrar. E meu amigo Fábio Martins foi barrado pela mulher. Sozinho, fui para as sociais para relembrar velhos tempos. Entretanto, e já disse isso aqui, nenhum tricolor coral fica sozinho no Arruda. A grata surpresa foi encontrar meu amigo de escola, Juninho. Conversar com Juninho é sempre bom. O papo é de alto nível. E ficou melhor quando, no intervalo do jogo contra o Guarani, ele chamou um amigo dele, Big, que é contador, para conversar com a gente. Enquanto a pelota rolava, conversamos sobre o poder absoluto de Tininho no clube e os problemas que isso traz; os equívocos contábeis do balanço que o clube publicou e que depois sumiu; a necessidade ou não de um placar; o passivo absurdo do clube; a baixa média de público nos estaduais do Brasil; o espírito retranqueiro de Eutrópio; nosso fraco meio de campo; a solidez de nossa defesa etc. Assunto que só a porra. No primeiro gol, após aquele passe primoroso de calcanhar de André Luís, Pitbull mandou para as redes e a torcida, sendo arquibancada ou sociais, foi ao delírio. É uma das melhores coisas do mundo comemorar um gol do Santinha no Arruda. No intervalo, disse pra Juninho que Vadão é inteligente e iria usar a fraqueza de nosso meio de campo, Dito e feito. Empataram. Mas garra é garra e Bueno, na estreia, garantiu nossa vitória. Como disse Juninho: esperamos que ele não seja um novo Pereira. Acabou o jogo e seguimos pra saideira em Abílio. Surgiram dois amigos de Juninho que deram o título dessa crônica: James, irlandês de Belfast, e Jerry, inglês da capital londrina. Pense em dois cabras bons e doidos que só a porra. Sentaram à nossa mesa e a conversa, claro, foi sobre nossa vitória. Num certo momento, eles falaram em inglês entre si. Como sou metido, perguntei em inglês se, depois de trinta anos vivendo no Brasil, eles ainda sentiam saudades de falar inglês. A resposta, obviamente, foi sim. Ambos curtem o Sex Pistols, assim como eu. Juninho ficou puto e disse que isso não era música....

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O jogo de amanhã me trouxe uma lembrança
maio19

O jogo de amanhã me trouxe uma lembrança

Vou levar falta, amanhã. Vi todas as possibilidades, mas não poderei ir. Muito menos assistir em alguma televisão. É lasca. Logo contra o Guarany de Campinas.  Carlos Alberto Silva, Gomes, Almeida. Aquele nosso time de 1983. Eu era um pirralho. A gente ia para o jogo tudo misturado. Preto, branco encarnado. Branco e encarnado. Preto e encarnado. Eu sempre de kichute, meião do Santa, calção preto e minha camisa com listras verticais. Rolete de cana e amendoim. A Santamante, a Santanás, a Força Jovem e outras organizadas. Naquele ano, fomos pro terceiro turno do campeonato como azarões. E aí, a história que nos acompanha desde o berço. Não deixe a cobra crescer, que a bicha bota pra fuder. No peito e na raça vencemos o terceiro turno e provocamos um super-campeonato. O jogo final daquele campeonato, o de 1983, eu tenho todo na memória. Desde a nossa saída de casa. Fomos num Opala. Era de um senhor, vizinho nosso. Sem GPS, sem celular, sem cinto de segurança, sem extintor, o cara era um tipo Uber dos anos 80. Ele acertava de nos levar pro jogo. Combinava um preço e nos levava.Quase sempre, o Opala ia com lotação acima do permitido. A gente entrava no estádio e o coroa ficava nos esperando, bebendo cerveja e escutando pelo rádio. Até hoje não sei porque ele não entrava. Eu perguntava a meu pai, porque o Coroa não via o jogo. Meu pai respondia: “sei lá. Ele é meio doido”. Enfim, essas doidices que cada um tem e ninguém sabe o motivo. Ficamos na arquibancada. Eu, meu pai e um amigo dele. Um dos maiores públicos que  já vi no Arruda. Quase 80 mil pessoas. Falam até que tinha mais gente. A turma do Capibaribe dava como certo a conquista. Falavam que já tinham encomendado as faixas de campeão. Mas já naquele época, eles nadavam e morriam na praia. Está no sangue do Capibaribe. Eu quase não consegui se mexer, mas não soltava minha bandeira. Metemos um a zero. Na hora do gol, fui levantado feito um troféu. Um senhor começou a passar mal perto da gente. A partida caminhava para o final, até ali éramos campeões. Pertinho do fim da peleja, eles empataram. Na base da raça, seguramos a prorrogação e fomos para os penaltis. Nosso time estava com um jogador a menos. Vencemos nas penalidades. Depois de 5 a 5, Luis Neto defendeu uma bola que ficou em cima da linha. Foi uma confusão. Depois de muito rolo, Gomes sacramentou nossa vitória. Que jogo. Eu, menino, gritava: “enfia a faixa no cu, seus porras!” Meu pai ria a vontade. O amigo...

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Com o pé direito.
maio14

Com o pé direito.

Meus amigos tricolores, semana de correção de provas é um inferno para qualquer professor. Passei a semana toda em meio a um milhão de avaliações e sem ter tempo de acompanhar direito as notícias sobre a estreia de nosso Santinha na séribê. Dava tempo de ouvir apenas a resenha de onze horas no rádio. Acabei as correções na manhã do sábado. Ao meio dia já estava tomando uma com os amigos e ansioso pelo jogo contra o Criciúma. No início da partida eu estava nervoso, assim como qualquer tricolor coral. Sabíamos das limitações técnicas e táticas de nosso meio de campo. A grata surpresa é que nossa defesa vem se comportando de maneira sólida. Na pancadaria da séribê, isso vai ser fundamental. Mas precisamos urgentemente de algumas modificações. Estou ouvindo que o Santinha está pensando em trazer alguns jogadores do Salgueiro – custo baixo é nossa realidade. Particularmente, sou contra. Creio que o segredo do Salgueiro não é jogador A ou B, mas sim o esquema tático e a união do time. Precisamos pensar em outras possibilidades. Já ta na hora de Eutrópio entender que tem que reorganizar esse esquema tático. Assim não dá. Ou, então, tá na hora de acharmos outro treinador. Tudo bem, começar ganhando é fundamental. Mas não podemos nos esquecer como foi a Série A ano passado. A questão financeira deve ser equacionada de qualquer maneira: colocar os pés no chão, gastar o que pode com inteligência e visar o futuro que já bateu em nossas portas. E sem salários em dias, meus amigos, não tem craque ou perronha que jogue. A notícia muito triste foi a fratura na perna de Vítor. Uma pena mesmo – 4 meses parado. A notícia estranha foi o fato de nossa virada ter advindo de um gol com Barbio. Quem, em sã consciência, iria esperar uma coisa dessas? Séribê é lugar de engenharia financeira, organização metodológica, transparência nas contas, inteligência nas contratações e na montagem do esquema tático e garra. Muita garra. Na última postagem, percebi um alto nível nos comentários. Fiquei muito feliz com isso. Como seria bom dar o print desses comentários e levá-los para a Diretoria. Vou falar com Sama e Inácio sobre essa possibilidade. Esses caras precisam escutar sua torcida, ainda mais quando o discurso é feito de maneira inteligente, com críticas bem embasadas e compreendendo nossos limites e possibilidades. Fiquei ainda mais feliz por saber que esse Blog é tão democrático. Cheguei a brincar com Gerrá; “Meu velho, há os torcedores do estilo Wlad e os torcedores do estilo Guilardo. O interessante é que os dois lados possuem excelentes argumentos. Isso é democracia pura!”....

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Melancolia, mas a vida segue.
maio09

Melancolia, mas a vida segue.

Disputa de terceiro lugar só vale a pena nas Olimpíadas. Aquele judoca que perdeu as semifinais, mas conseguiu passar para a disputa do bronze e consegue chegar ao pódio. É orgulho nacional, festa, entrevista, a porra toda. Mas, no futebol, disputa de terceiro lugar é só melancolia. Numa boa, alguém vibrou com a última disputa, na Copa do Mundo, de nossa Seleção pelo terceiro lugar? Duvido. Morgação total. Foi esse sentimento de morgação que senti no último jogo do Santinha contra as barbies do Capibaribe. Sábado eu estava na Casa Azul, espaço literário e sebo de Samarone lá na Rua Treze de Maio em Olinda. Estava lançando meu livro A Tempestade que ganhou o I Concurso Nacional de Literatura da Afeigraf-SP. Gerrá e Esequias estavam lá. Foi muito massa. Casa lotada, bons papos, muitos livros e muita cerva. Mas era estranho como havia certo desinteresse pela partida. Claro que alguém pode citar a importância desse jogo para entrarmos na Copa do NE. Contudo, a melancolia é ainda maior. Esse atrativo parecia não colar. Acompanhamos o jogo entre um gole e outro de cerveja, mas num ostracismo absurdo. Nem os gols e nem a vitória pareciam capazes de apagar a mágoa da eliminação contra o Salgueiro e da incompetência esdrúxula contra os coisados do Do Recife. Melancolia é um bicho estranho. Vai se enroscando na alma do cidadão, fazendo casa e querendo tomar conta de tudo. Por isso é preciso combatê-la. A vida, a despeito da melancolia, segue. O vazio que está presente agora é temporário. Entretanto, é preciso lembrar que os erros cometidos nesse início de temporada devem ser revistos e analisados de maneira profissional, entendendo os limites de nosso amado clube. Mas alguma coisa – ou coisas – tem que ser feito imediatamente. Não dá para procrastinar. Na Casa Azul, durante o lançamento, conversei com alguns amigos sobre a crise que se abate no futebol pernambucano. A crise crônica do Central, o desespero das barbies e nosso eterno passivo. Um amigo foi taxativo: “Era preciso adotar o modelo capitalista da Espanha. Quase todos os clubes por lá são Sociedades Anônimas. Chamem um porra de um sheik cheio da grana e vendam esses clubes falidos daqui. Na hora vocês vão ver o negócio funcionar. Tem muito neguinho que só faz mamar a séculos nas tetas de nossos clubes. Essa incompetência crônica e essas dívidas eternas não são de graça…. são pensadas para que alguém se dê bem”. Ficamos bebendo e discutindo sobre o jogo do Santinha contra o Atlético e a famigerada Séribê. A casa de Sama transpirava literatura e melancolia futebolística. Uma tarde maravilhosa com pessoas maravilhosas. O...

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