O cara da xerox
ago31

O cara da xerox

Toda vez que encontro com Ivonaldo, o cara da xerox,sou puxado para uma conversa. Na maioria das vezes, ele fala por nós dois. Gente boa, ele é da turma que era frequentadora assídua do Todos com a Nota. Sempre que posso, dou um ingresso a ele. No nosso papo é sempre música, política e futebol. Futebol não, o Santa Cruz, é claro. Tem uma frase dele que guardo comigo: “A torcida só incentiva o time, se ele incentivar ela”. Esbarrei com Ivonaldo no corredor do segundo andar. O cabra estava  com uma raridade nas mãos: o LP “Beijoqueiro do Amor”, de Paulo Márcio. Me mostrou o disco, perguntou se eu conhecia.  E cantarolou: “Oh, oh, sou beijoqueiro do amor/ Oh, oh, eu beijo mais que um beija-flor” — Esse é fera – ele disse. Eu concordei. Começamos a falar do Santa Cruz. A decepção, a esperança, nossas chances, etc e tal. — Sabe a Ponte Preta? O Centro de Treinamento deles só tem dois campos oficiais! – ele falou. Confessei que não sabia. — A Chapecoense tem CT! – afirmou Ivonaldo. Perguntei se ele tava fazendo alguma monografia sobre centros de treinamento. Ele riu. Pegamos o elevador. No andar de baixo, entrou uma coisa linda. Ivonaldo se calou um pouco. Quando chegou ao térreo, o cara da xerox pegou no meu braço e mandou: — Vou lhe dizer uma coisa. Pra fazer gol, só tem o Grafite. Ele já é nego véio. A turma achava que Negão ía tá iluminado do começo ao fim do campeonato. Inxiste isso? E continuou a falação: — A torcida?  Tem culpa, não. E é a gente que contrata, é? Quem contrata é o diretor e o treinador. — Trouxeram cada desgraça pior do que a outra. Aquele Roberto, o tal do Bolañus, esse Marion… são ruim que dói. — E Lelê? E o General? E Allan Vieira? Essas pestes é tudo jogador de seribê. — E aquele Marcinho? O cabra veio somente pra fazer regime. — A turma pensa que Seriá é Seribê. É não. É diferente. E né por nada não, esse time aí, se tivesse na seribê tava dando raiva. Olhe, sei não… Concordei com tudo. Me despedi e perguntei se ele já havia jogado a toalha. — Não. Oxente, só jogo a tolha quando a matemática provar que não dá mais pra gente se livrar. E concluiu: — Sim, essa Sulamericana tem nada a ver com seriá. E eles tem um medo arretado da...

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Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.
ago28

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.

Assistir a uma partida de futebol sozinho em frente à TV é uma coisa esquisita. Explicar-me-ei. Passei o sábado tomando todas com alguns amigos. Fui dormir pra lá de bêbado. Assim, no domingo, acordei assustado, sem entender o que estava acontecendo. Olhei no relógio: 10 e 50. “Eita porra, o jogo do Santinha!”. Dei um salto da cama, tomei um banho voando e liguei a TV no início da partida. Não tive tempo de falar com ninguém e quem tentou se comunicar comigo deve ter percebido que meu celular estava descarregado ou que eu tinha morrido – até parecia que eu sabia que iria protagonizar naquele dia a célebre afirmação de Chico Buarque: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”. O estranho de assistir ao jogo sozinho é que o cara fica discutindo consigo mesmo, berrando para ouvidos imaginários, querendo que a bola entre num passe de mágica na meta do adversário. Até parece que a TV vai ouvir seus apelos e o gol redentor vai sair. Que nada. Cambada de surdos. E o pior: eu estava de ressaca, sem cerveja, nervoso e sem esperança algum de beber até o fim do jogo. Por isso estou escrevendo estas linhas ainda sóbrio. Incrível. Mas, novamente, não é que o Santa Cruz jogou bem no primeiro tempo. O que me surpreendeu foi o acerto tático da zaga. “Isso é inacreditável”, disse para mim mesmo. E se não fosse aquele travessão filho da puta, o negócio teria sido bem diferente. Mas o segundo tempo… ah, o segundo tempo, meus amigos. Dois gols em dez minutos. Apagão geral, erros infantis e a desesperança tomando conta. O jogo acabou e liguei para alguns amigos: “Vamos tomar uma que o dia hoje não começou bem”. Vou sair agora para me embriagar, porque o mundo ficou muito pesado. Mas sou tricolor de corpo e alma e só jogo a toalha no final do final. Cara insistente da porra. Pois é, meus amigos. Pois é. Liguei para Gerrá para saber se ele iria escrever sobre esta partida. “Rapaz, estou pensando em escrever sobre uma receita de bolo”. Mais um com o espírito de Chico Buarque na alma. Torcer para que a Sul-americana nos permita mudar o lado do disco e que a música seja outra: “A minha gente sofrida Despediu-se da dor Pra ver a banda passar Cantando coisas de...

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A loucura nossa de cada dia.
ago25

A loucura nossa de cada dia.

De técnico e louco, todo torcedor pernambucano tem um pouco. Antes de lecionar em faculdades, eu era professor de idiomas numa escola na Conde da Boa Vista. Lá tinha um professor de francês que era mais doido do que Lisca e Milton Mendes juntos. Ronaldo – ou Ronaldô para os amigos e alunos – era um doente burro negro. Ele se fantasiava da cabeça aos pés: gorro do time, camisa oficial, calça jeans com o escudo bordado no bolso, pochete do time (pois é, o cara usava pochete), pulseira e colar coloridos e sapatos combinando. Ronaldô, diante de um jogo da coisa que seria numa quarta-feira (dia de aula), disse ao dono da escola que estava muito doente. No intervalo da aula à noite, sai de minha sala e fui para uma salinha com TV na recepção da escola. Outros professores e o dono estavam lá. A TV, sintonizada na Globo, transmitia o jogo da leoa. E não é que a porra do cinegrafista deu um close em Ronaldô: saudável que nem atleta olímpico, sorridente, segurando um copo de cerveja e gritando o nome de seu time. “Puta que pariu… Ronaldô”, disse um professor. “Esse filho da puta me disse que estava doente”, replicou o dono da escola. Todos caíram na gargalhada. Que bicho escroto e azarado, meu amigo. Mas o dono sabia que ele era doidinho e decidiu perdoar o maluco. Ronaldô fingia que era policial civil, cidadão italiano, proprietário de imóveis, treinador de times de base, o escambau. Um doido de pedra. Faz tempo que não o vejo. Mas se o visse hoje, tiraria onda com sua cara. “A leoa fez feio ontem, Ronaldô. Levou pressão do Santinha. Esse teu timeco é muito fraco”. Ele ficaria puto, me xingaria e me mandaria para o quinto dos infernos. Minha greia só não seria maior porque o Santinha insiste em manter essa ruindade no ataque. Haja paciência para tanta incompetência na finalização. E que jogo morno do cacete, mesmo com o Santinha se impondo em campo e mostrando domínio na partida. Wallyson entrou para tentar mudar o jejum de Grafite. Mas com essa incapacidade de conectar com velocidade e acerto o meio de campo com o ataque, está ficando muito difícil. Não adianta mais xingar Tininho, MM, o passado, a Diretoria, o presidente, a torcida. O que foi feito de merda, já foi feito. Temos que trabalhar com essa dura realidade. Domingo temos mais uma parada dura e indigesta pela frente. Torcer para que o nosso ataque possa voltar a marcar. “Grafite, meu filho, cadê você?”. Domingo estarei provavelmente com Samarone tomando uma cerveja em frente de alguma TV...

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Um final de semana quase perfeito.
ago22

Um final de semana quase perfeito.

O que irrita é esse quase. A seleção brasileira ganhou o tão desejado ouro olímpico. Do Recife (a leoa) e Capibaribe (a Barbie) perderam. O vôlei deu show e faturou o ouro também. Só faltava o Santinha ganhar do Fluminense para o final de semana ser perfeito. Não foi. Fui ao Arruda com Samarone. Havia uma esperança no ar de que Doriva iria dar ânimo novo ao time e de que Pisano fizesse uma boa partida. Acredito que isso realmente ocorreu. Até levar aquele gol ridículo com uma falha crassa de nosso goleiro, o Santa Cruz estava dando pressão no tricolor carioca. O problema é que Grafite está ausente dentro de campo há muito tempo. Deu até uma de zagueiro nesta partida. Keno correu muito, foi valente, mas não chutou uma dentro. Pisano jogou bem, dominando a bola, armando e construindo jogadas. João Paulo fez o possível, mas faltou conexão entre o meio de campo e o ataque. Os cariocas se armaram para defender e levar os três pontos de todo jeito. Enquanto eu e Samarone tomávamos umas cervas e escutávamos o jogo no rádio acompanhando a partida, o tempo ia passando e o desespero ia crescendo. Não conseguimos chegar à meta adversária. Para piorar a situação, esqueceram de dizer a Doriva para nem pensar em colocar Lelê em campo. O que é isso, companheiro? O esquema de Doriva, começando com um 4-2-3-1 se mostrou válido. O que mais me irritou – e a muitos torcedores – foi nossa incompetência em marcar um gol. Cá entre nós, esse time do Fluminense é fraco. E, mesmo assim, está entre os dez. Mas nosso Santinha insiste em mostrar suas fraquezas. A demora em se livrar do doido do MM vai nos custar caro. Além, é claro, das más contratações. A situação, meus amigos, está ficando complicada. A probabilidade de sermos rebaixados chegou aos 71%. Temos que fazer 45 pontos para chegarmos, segundo o matemático Oswald de Souza, aos 40% de chance de rebaixamento ao fim da 38ª rodada. 48 pontos para se livrar 100% da Série B. É de lascar. 48 – 19= 29. 29 pontos nas 17 rodadas que faltam. Dureza, meus amigos. Podem fazer os cálculos. Depois do jogo, fomos tomar a saideira no Sukito. Sama estava cabisbaixo, sombrio e introspectivo. Não tinha como ser diferente. Desistimos? Nem a pau. Temos a pedreira do Cruzeiro domingo que vem e vamos torcer por uma vitória do nosso Santinha. Mas não dá mais para ficar no quase. Nossos finais de semana devem ser perfeitos. Ainda tem muito estoque de cerveja e garra para essa Série A. Acreditando até o final. No...

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Um duelo de gigantes tricolores
ago20

Um duelo de gigantes tricolores

Texto de Zeca, o filósofo da Boa Vista Desde os cinco anos de idade que vou aos jogos do Santa Cruz no Arruda. Meu parceiro constante era meu pai. O ritual era sempre o mesmo: espetinho e cachorro-quente na entrada do estádio, choppinho no campo (aquela velha garrafinha gordinha) e a espera pela sirene da vitória ao final do jogo. Infelizmente, em 2014, um câncer devastador levou meu parceiro. Foi ele quem me ensinou a amar o Santinha e o Arruda – a mística que envolve esse lugar, sua torcida magnífica e as cores que tanto amamos: vermelho, preto e branco. No próximo domingo teremos um duelo de tricolores no Arruda. Estarei lá sem meu parceiro. Numa retrospectiva histórica, os cariocas levam a melhor com mais vitórias. Mas futebol, como disse certa vez o comentarista Benjamim Wright, é uma caixinha de surpresas. Minha memória seletiva só pensa nas nossas vitórias. Que se danem as derrotas. Tiago Costa já avisou que Doriva está dando uma injeção de autoestima no time. Vontade de vencer e atitude mental de guerreiro serão decisivas neste confronto. A vitória virá com suor e determinação, garra e incentivo da torcida. Temos e vamos ganhar neste domingo: com ou sem dedo no fiofó do adversário, salário atrasado ou não, esquema novo, Doriva no comando, Pisano em campo,  acredito que a partir deste jogo decisivo iremos reverter a situação a nosso favor. Neste sentido, sou um torcedor otimista. Só desisto diante do inevitável. Até lá, acreditando e indo ao Arruda – ainda mais com ingressos por 20 reais. No mundo real, estamos na 19ª colocação, míseros 19 pontos e uma probabilidade de 59,7% de rebaixamento. Mas torcer apaixonadamente é sair da esfera da estrita racionalidade e acreditar. E a torcida tricolor pernambucana é craque em levantar o time diante das adversidades. Interessante que neste momento tão especial, o ex-presidente do Santa, João Caixeiro, lança o livro Santa Cruz de Corpo e Alma para ajudar na construção de nosso CT. Como a trilogia é cara pra cacete – 1000 reais – fico com a ideia animadora de amar o Santinha de corpo e alma. E é com esse espírito de pertencimento total ao Santa Cruz que estarei domingo no Arruda. Tomarei umas cervas no estádio, espetinho e cachorro-quente, o calor da torcida e a beleza que vai ser ver o campo sendo invadido por dois times tricolores. Vai ser uma beleza só. No final do jogo, quando tivermos mandado o Fluminense para a puta que pariu, vou me lembrar de meu pai, meu grande parceiro, e vou lhe dar um abraço imaginário, só alegria, dizendo apenas para ele: “Tá...

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