Filosofia futebolística
maio29

Filosofia futebolística

Texto do nosso colaborador Zeca* Um jornalista perguntou à teóloga alemã Dorothee Sölle o que era a felicidade. Resposta: “Como a senhora explicaria a um menino o que é felicidade? Não explicaria. Daria uma bola para que ele jogasse.” O futebol desafia o elemento racional que habita em quase todos nós. Essa dimensão da felicidade infantil é logo sobrepujada pela realidade do torcedor adulto, pelas tristezas e alegrias que os resultados de seu time lhe impõem.  Isso justifica uma frase de Nelson Rodrigues, o maior cronista de futebol brasileiro: “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.” O futebol é a vida e, assim como esta, é alegria e pesar, esperança e raiva, paixão e razão, sanidade e loucura. E ser torcedor do Santa Cruz acirra ainda mais essa questão. Talvez fosse necessária uma filosofia do futebol, uma sociologia futebolística ou uma antropologia da bola para explicar a paixão louca desta torcida. O futebol compõe um mosaico de lembranças e expectativas que preenche a vida do torcedor de sentido. Lembro quando vi Pedrinho, Joel Mendes, Gabriel, Ramón, Henágio e Mancuso jogando. Meu pai dizia que eu tinha visto Nunes jogar quando era muito criança. Infelizmente esta lembrança se apagou. Estas lembranças – somadas à entrada no Arruda, ao calor da torcida, ao espetinho e ao famoso cachorro-quente, às cervejas no Abílio, às discussões durante e após os jogos – constroem uma identidade que se torna universal quando vestimos as três cores do Santinha. O filósofo alemão Martin Heidegger entendia que o que define o ser humano são elementos estruturais que ele chamou de existenciais. O principal existencial é o fato de todos nós sermos um ser-no-mundo. Mas, talvez por desígnio dos deuses do futebol, alguns recebam o privilégio de ser um ser-para-o-futebol. O futebol – seja no Brasil, Argentina ou Inglaterra, por exemplo – causa a catástrofe da nossa racionalidade. Mas isso não é ruim. Ao contrário, permite que realizemos a totalidade de nossa humanidade. Uma partida de futebol, mais especificamente, revela o que realmente somos. É nestes noventa minutos cruciais que rezamos, torcemos, berramos, choramos, gritamos de alegria e comungamos com o universo todo a nossa existência. O grito de gol – e mais ainda o grito de campeão – coloca a todos na mesma dimensão humana. O nosso eu, tão pequeno, se torna grandioso. Torna-se parte de uma energia que flui dentro e fora. A paixão por um time revela a necessidade humana de sentido. E mais ainda: a nossa consciência de que o destino se constrói a cada dia, a cada minuto, a...

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Mais um que se apaixona
maio26

Mais um que se apaixona

Caminhei para o Arruda ao lado de Fred Dias. Fomos por ali, sentindo o cheiro da massa coral, conversando e brilhando os olhos a cada comentário sobre o Santa Cruz. E que jogo, meus amigos! Mas sobre a partida, deixo a bola pra vocês, porque ontem, vi de perto a realidade da crônica que Samarone escreveu, “O que faz do Santa Cruz o time mais apaixonante do Brasil”. Quando cheguei ao mundão, encontrei o velho amigo Fred Arruda. Logo em seguida a minha primeira-dama. Comprei os ingressos e me mandei pras cadeiras. Morto de fome, tracei um pastel e uma Itaipava geladinha. Foi quando vi Marconi, Rafa e um sujeito barbudo de óculos. Era Raero Monteiro. Raero se inscreveu no concurso da Assembléia Legislativa de Pernambuco. Gaúcho, torcedor do grêmio, ele foi aprovado e veio de mala e cuia para o Recife. Nesta semana, na terça-feira, Raero liga para seu amigo de trabalho Marconi Glauco fala umas coisas e diz: —  Rapaz, tô querendo torcer pro Santa, já que não ganho nada lá pelo Sul, quero ser ganhador aqui. Por mais clichê que pareça, quando Raero telefonou, Marconi estava indo ao Arruda comprar os ingressos para a peleja contra o Cruzeiro. Sem avisar ao nobre gaúcho, tratou de comprar um ingresso a mais. Quando chegou à Alepe entregou ao gremista e ouviu: — Agora só falta a camisa! Combinaram de ir juntos ao Arruda. O ponto de partida, a residência de Marconi. Lá, Raero não amarelou, vestiu a camisa Cobra Coral e se mandou para o José do Rêgo Maciel. No trajeto, ainda teve que ouvir uma gracinha. Alessandra foi logo avisando: — Cuidado, visse! Se o Santa Cruz não ganhar, tu não vem mais com a gente! — Sou pé-quente. – ele respondeu. Raero se encantou com o que viu. Ficou alucinado com a magia do lugar. — Porra, que estádio. — A torcida do Santa é foda, tchê! A cada gol, Raero vibrava como o mais puro tricolor coral santacruzense das bandas do Arruda. Quis saber quem era o zagueiro Néris. Se impressionou com a velocidade de Keno. E sobre o Graffa….. Ah, o Graffa! Grafite é Grafite. O semblante dele no segundo gol o Negão, já disse tudo. Só sei que , com direito a batismo com banho de cerveja no gol de Artur, Raero é mais um de tantos que se apaixona por nossas cores, nossa beleza e simpatia. Bem-vindo, meu...

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A profecia de Seu Zé de Félix
maio24

A profecia de Seu Zé de Félix

Naquele fatídico 09 de agosto, quando o juiz encerrou a partida, não recordo o que veio à minha cabeça.  Lembro que fui tomado por um misto de tristeza e descrença. Não sei se enchi a cara. Faltou muito pouco, faltou quase nada, para eu acreditar que o Santa Cruz iria se acabar. Aquele dois a dois, não só calou o Arruda. Deixou todos atordoados. No dia seguinte, Aureliano, o Léo, escreveu um desabafo. Botou pra fora toda sua angústia e raiva.  Como se estivesse falando para o mundo, em um dos trechos, ele escreve: “chega de tanto sofrimento, constrangimento, humilhação. A instituição Santa Cruz…”. Léo pensou no pai. Sócio do Santa Cruz, frequentador assíduo do Arruda, como haveria acordado o coração cansado de guerra de Seu Zé de Felix. Pegou o telefone e ligou. — Papai, tudo bom?! Lá de Vitória de Santo Antão, seu Zé de Félix,  não escondeu sua tristeza. Por outro lado, não se intimidou com a infeliz realidade. Muito menos, perdeu a esperança. Repetiu para o filho, o que já havia dito de outras vezes. — Eu ainda vou ver o Santa Cruz na primeira divisão. Aquilo soou como um consolo para o filho. Aquele consolo que ao invés de acalmar, deixa o sujeito irritado. Léo não se conteve. — Papai, pelamor de Deus, o senhor já tem 94 anos! Fomos para outra série D. Passamos por cima de pau e pedra. Enfrentamos chuva, sol e sereno. Vencemos. Nos classificamos para terceira divisão. Mas o inferno ainda era ali. Apenas tínhamos saído do fundo do poço do futebol brasileiro. Jogamos a sericê, paramos no meio do caminho e ficamos por lá. Era como se o sonho de ainda ver nosso time na série A, ficasse cada vez mais longe de se transformar em realidade. Mais um ano na terceira Seu Zé de Félix, filhos e netos, sempre de braços dados com o Santa Cruz, acompanharam nossa façanha. No peixinho de Caça-Rato, naquele memorável gol contra o Betim, eles estavam no Arruda e viram o Santa Cruz ir para segunda divisão. Fizemos 100 anos e disputamos a seribê. Ficamos por várias rodadas na porta de entrada do G-4. Ao final, não saímos da segunda. Pelo trauma vivido, para muitos, o fato de conseguir se manter ali, já foi um grande negócio. Entramos em 2015. Seu Zé de Félix se tornou centenário. Outra vez ganhamos o estadual. E, de forma surpreendente, o mundo viu um time fazer um trajeto quase impossível para muitos. O time do povo, da poeira, da massa, está de volta a série A. Na próxima quarta-feira, contra o Cruzeiro, Seu Zé de Félix...

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Otimismo faz bem à alma
maio23

Otimismo faz bem à alma

Texto enviado por Zeca* Excetuando a segunda pela manhã, minha semana se resume em ir de casa para a faculdade lecionar pela manhã e à noite. Assim, nada mais justo do que começar o sábado tomando uma cerveja gelada com os amigos. Da sala de meu apartamento é possível vislumbrar a Igreja de Santa Cruz – local mais que sagrado, origem e marco de fundação do nosso Santinha.  Segui para o Mercado da Boa Vista na esperança de encontrar uma mesa. Impossível: parecia o Galo da Madrugada. Solução: tomar uma no Seu Sebastião, o tricolor mais respeitável do Largo da Santa Cruz. Liguei para Samarone e Fred no intuito de ter companhia durante a espera pelo jogo às 18 e 30. Sama estava com problemas domésticos para resolver e não pode aparecer. Fred veio logo em seguida. Bebi até umas quatro da tarde. Esse negócio de jogo à noite no sábado é complicado para mim. Sou ansioso por vida e penso que a vida, quando nos dá a oportunidade, deve ser vivida. Isso significa que não poderia esperar até o início do jogo para tomar uma. Como não tenho grana para assinar o PFC, fui para um bar perto de minha casa. Estava com uns amigos e o álcool já estava maior do que minha quantidade de sangue. A bola começou a rolar no Raulino de Oliveira (que nome feio da porra para um estádio) e logo o nervosismo tomou conta. O primeiro tempo foi brigado e o Santa mostrou que o esquema de Milton Mendes tem futuro. No bar, houve intensa discussão sobre as substituições – uns a favor, outros contra. Na primeira chance do Santa, Keno se atrapalhou e perdeu uma boa chance (Keno, meu filho, você é um grande jogador, mas tenha calma, pelo amor de Deus). Richarlison tentou uma bela bicicleta que parou nas mãos de nosso paredão. Depois de umlindo lance de Grafite, Keno se estabana todo e joga longe. Calma, rapaz, calma. O jogo foi tenso e o segundo tempo foi mais tenso ainda. Até que a estrela de Grafite brilha mais uma vez. Meus amigos, é talento demais. No lugar certo e na hora certa. O bar explodiu e a gritaria era geral, mas não se compara à emoção de gritar gol no Arruda. Logo em seguida veio a falta espetacular cobrada por Gustavo Scarpa. Tiago ainda tocou na bola, mas a falta foi muito bem cobrada. Tenho que admitir que foi um golaço. O segundo gol do Fluminense veio exatamente de um escanteio cobrado por Scarpa. Achei confuso o lance e a marcação dentro da área. Pensei, logo em seguida, como...

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Todos Guerreiros
maio19

Todos Guerreiros

*Texto enviado por Zeca O sertanejo é, antes de tudo, um forte. E se Euclides da Cunha fosse vivo e tivesse a honra de estar presente ao Arruda neste sagrado dia 15 de maio de 2016, ele provavelmente reescreveria sua célebre frase: “O torcedor do Santinha é, antes de tudo, forte pra caralho!”. Onze horas da manhã, sol a pino, calor dos infernos e 20 mil apaixonados invadindo o Arruda com a alegria recente das conquistas da Copa do Nordeste e do Campeonato Pernambucano. A esperança, de mãos dadas com a vitória, estava estampada no riso fácil desta multidão de loucos. Segui para o Arruda com meu amigo Samarone e minha esposa. Nos encontramos no Sukito – bar da Rua Princesa Isabel em que assistimos aos jogos transmitidos pela TV. Tomamos uma cerveja rápida para dar disposição e animar a alma. Tomamos um táxi na Suassuna com medo de perdermos qualquer lance nesta estreia tão sonhada e agora tão real, tão nossa, extremamente nossa. Na entrada do Arruda, Sama cumprimentava todo mundo. O cara é pop star tricolor. Uma paixão tão verdadeira e poética que transborda na felicidade com que os outros torcedores o cumprimentam. Tirou umas fotos com alguns torcedores. Daí seguimos para as arquibancadas. E aí, o maior de todos os prazeres: entramos no Arruda, entramos na série A. Meu deus, eu pensei, que alegria, que emoção, que coisa mais linda. Tenho 45 anos e desde os 5 anos que venho ao estádio da torcida mais apaixonada do mundo e do time mais querido. Meu ritual com meu pai era comer o famoso cachorro-quente do estádio e tomar cerveja com espetinho de carne (só não me pergunte que carne é aquela – melhor nem saber). Quando o jogo começou, um nervosismo deve ter invadido o coração de todos. Presidente, diretoria, comissão técnica, jogadores, torcedores, até mesmo o cara que serve cafezinho ficou nervoso. No zap zap, meus amigos que torcem pelo Do Recife (Já que Sport Club tem uma porrada por aí) e pelo Capibaribe (Já que Clube Náutico é denominação de agremiação esportiva) zoavam comigo: “Vai levar uma lapada”, “Agora é série A”, “Vai dançar”! Os dez primeiros minutos pareciam corroborar estas malditas profecias. O time estava atabalhoado. O Vitória dominava o meio de campo e o jogo em si. “João Paulo faz muita falta”, disse um torcedor ao meu lado. “E jogo nesse horário é foda”, reclamei. “Mas é bom’, disse outro torcedor, ‘assim posso beber até às quatro da tarde e trabalhar tranquilo amanhã de manhã”. Isso é que é sabedoria popular. Como disse, o jogo estava complicado. Neris segurava a zaga com um...

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