No mundo das frustrações
ago30

No mundo das frustrações

Amigos corais, não sei o que diabos esses jogadores do Santa têm no espírito e nas pernas. Quando jogam no Arruda correm feito o cão, fazem gols, sustentam vitórias, viram jogos memoráveis, não tomam conhecimento de ninguém, nos enchem de alegria e esperança, mas… Basta sair da fronteira de Pernambuco, que os caras literalmente amarelam. Quando começa um jogo fora de casa, eu fico até com raiva quando sai um gol. Eles, os jogadores, imediatamente abandonam o padrão de jogo que vinham impondo ao adversário, recuam vinte metros depois do meio do campo e ficam esperando o óbvio ululante – o empate adversário. É questão de minutos. Ontem, quando terminou o primeiro tempo, comentei com meu cunhado Pedoca: “Eles vão levar um esporro do caralho do Martelotte e vão entrar no segundo tempo cuspindo fogo, comendo a grama”. Qual o quê. O time parece que aproveitou os 15 minutos do intervalo para tirar um cochilo. Voltaram tirando a remela dos olhos, bocejando, lamentando ter deixado o lençol e travesseiro no hotel. No segundo gol do escrete do Paraná, parecia que a bola dava choque em quem botasse o pé nela. Ela foi sendo tocada de pé em pé. A pelota passou pelo lateral, pelo meia, passou pela zaga, pelo roupeiro, massagista, pelos médicos do Santa, e de repente o adversário estava na frente do Paredão. O atacante tirou o celular do bolso, fez uma selfie, postou no facebook, recebeu 22 curtidas e fez o gol. E nossos atletas bocejando. Depois veio o terceiro. Foi nessa hora que rezei para não levarmos uma goleada. Ainda fizemos o segundo gol, mas a sina continua – vitória, só em casa. Eu já estava puto, quando vi na TV ao lado (estava no Clube Alemão, no aniversário de um sobrinho) o gol da Barbie, digo, do Náutico, no apagar das luzes. Um sujeito de uns 60 anos começou a pular, quase quebrou a cadeira, aos gritos de “É campeão, porra!” Que merda, foi o que pensei. Ou seja, o meu sábado, graças aos atletas corais, terminou numa frustração que nenhuma avaliação merda ou comentário de jogador (ou de treinador) pode curar. Até porque eles sempre dizem “é levantar a cabeça e pensar no próximo jogo”, e qualquer perna de pau de pelada sabe que quem está com a cabeça baixa joga olhando para o chão – e não acerta um passe. * Mas já estou com o ingresso da terça no bolso, porque esse sonho da Série A, pelo que estou vendo, vai render até a última...

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Uma noite inesquecível
ago26

Uma noite inesquecível

Passava das cinco da tarde e Thiago manda um zap-zap para avisar que já estava no Shopping. Ele e mais uma centena de torcedores. Meia hora depois, envia outra mensagem, poética e provocativa. “Gerrá, parece que eu estou no centro da cidade, numa segunda-feira, depois de uma vitória do Santa Cruz”. Logo em seguida o telefone toca. Era a primeira-dama. “Estou chegando em Boa Viagem.” Não pensei duas vezes. Fechei um documento que tava fazendo, salvei, desliguei o computador e me mandei pra Esposende. Cheguei logo depois das 18h e a loja estava entupida de gente. Thiagão já me esperava na fila. Alessandra estava com as meninas, vendo umas roupinhas. E os corredores do shopping era todo Santa Cruz. Uma coisa bonita de ser ver. Preto, branco, vermelho, sarará, galego, gordo, magro, rico, pobre, morena, velho, menina, moça. Todos juntos e misturados, como é a verdadeira massa coral. — Como é contagiante, nossa torcida. Como é linda! – falo silenciosamente e seguro a emoção. Na minha frente, um rapaz humilde, pergunta se a gente pode tirar uma foto dele. Era Gilmar. Estava sozinho e sua maior angustia era como iria fazer pra registrar o momento de encontro com os jogadores. — Queres que tire foto tua com quem? — Com todos eles. De repente, uma vibração única toma conta do lugar. Parecia que o Santa estava entrando em campo. Nossos atletas haviam chegado. Anderson Aquino, Grafite e Renatinho é sorriso puro. Thiago Cardoso, a tranquilidade de sempre. Raniel, um garoto ainda tímido no meio dos adultos. A loja se transforma num verdadeiro caldeirão de gente. Molhado de suor, o simpático Alírio, o nosso presidente, é vibração pura. Faz selfie com alguns, abraça outros, cumprimenta todos. A fila está cada vez maior. Atrás de nós, uma família que mora no Curado. Pai, filha e avó. Cada um com uma camisa para ser autografada. Minha pequena Sofia é ansiedade pura. Com as mãozinhas suadas, diz que está doida pra ver Grafite. De repente uma turminha que está a nossa frente, começa a puxar: “ô, ô, ô, o Grafite chegou, o Grafite chegou”.  Todo mundo olha e a gargalhada é geral.  Era um sósia do nosso craque. Um sujeito moreno, quase preto, e careca. O cabra era a cara de Grafite. E assim foi a noite. Como bem disse Thiagão, o Shopping Center que já foi considerado o maior da América Latina em linha reta, ontem ficou parecendo o Mercado da Encruzilhada em dia de jogo do Santa Cruz. E eu, com o coração lavado de felicidade, vou guardar a noite de ontem na minha caixa de boas...

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Esses nossos heróis anônimos
ago25

Esses nossos heróis anônimos

Quase sempre, antes de pegar no batente, passo uma vista na minha caixa de correio eletrônico. Hoje no meio de um monte de mensagens sem muita importância, vejo um e-mail enviado por Gileno, o famoso Parral da nossa pelada. O título do assunto é bem objetivo e escrito em caixa alta: TIMEMANIA. Clico na mensagem e me deparo com o seguinte: Tricolores, Estou de volta com as apostas da TIMEMANIA. Os tricolores da expansão podem deixar o valor da aposta (R$ 10, ou 20,) com Diogo Melo (Gerente da Caixa) facilitando a arrecadação. Estarei recolhendo até quarta-feira (26/08) para fazer as apostas na quinta-feira. Se conhecerem outros tricolores e quiserem divulgar a empreitada, manda entrar em contato comigo. Segue a relação que tenho atualmente. No anexo, Parral coloca uma prestação de contas sem firulas, mas que dá uma credibilidade danada a ação. É uma simples planilha Excel com o nome e o contato dos contribuintes e os respectivos valores que a turma dar mensalmente. Antes que alguém pergunte quem é esse tal de Gileno, ele é sócio do Santa Cruz, seu pai e sua mãe são do Santa Cruz, os três filhos dele torcem pelo Santinha, a esposa é do Santa, e pra finalizar é meu irmão. Perguntei a ele como havia surgido a ideia. — Quem deu a ideia foi Adilson Lira. Aí, eu comecei a mobilizar uns tricolores. Aos poucos o grupo foi aumentando. Na primeira convocatória, eles conseguiram uns dez adeptos. E bem rápido, chegaram a trinta apostadores. A lógica da ideia é simples: o maior atrapalho é a falta de tempo para alguns irem até uma casa lotérica. E é verdade. Perto da minha casa, por exemplo, não tem nenhuma loteria. Fico aqui no pensamento e na viagem… Imaginem se em cada repartição, nas fábricas, nas empresas, nas torcidas organizadas, igrejas, terreiros, alguém promovesse uma ação desta de juntar alguns torcedores corais santacruzenses das bandas do Arruda e fazer jogos na Timemania! Não precisava nem ser toda semana. Bastava uma vez no mês, que iria botar nosso Santa Cruz entre os vinte times melhores colocados nesse jogo. Certa vez, o presidente Alírio Moraes comentou sobre esses heróis anônimos. Tenho pra mim que ele se referia a gente como Gileno e...

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Uma obsessão: O acesso
ago22

Uma obsessão: O acesso

Amigos corais, sem obsessão, o sujeito não faz sequer a feira. Falo, obviamente, do Santa Cruz. Começamos o campeonato estadual como reles coadjuvantes. Na Paixão de Cristo, seríamos o bilheteiro, e olhe lá. A muito custo, dizia a crônica esportiva, chegaríamos em quarto lugar. O título já era do Sport, vinte rodadas antes da tabela. O clube que recebe da TV uns R$ 35 milhões por ano, que é patrocinado pela Adidas, só treinava depois de tirar a foto de campeão. Os jogadores receberam o bicho antes de chegarem as chuteiras novas, feitas na Europa, com couro de búfalo criado em cativeiro. Enquanto isso, nós fazíamos vaquinha para ficar entre os vinte da Timemania. Com os R$ 350 mil mensais em 2015, garantiríamos pelo menos metade do salário do elenco. Teve gente que vendeu a Variant 1977 para ajudar. Para resumir, o Santa Cruz foi foi o vigésimo colocado na Timemania e papou a taça de Campeão Estadual de 2015. Pois bem. Começamos a Série B como sempre. Aquele cão pulguento, que fica olhando os galetos rodarem na maquininha. Isso, se o tricolor for bem de vida, como Gerrá, Robson Senna, Esequias, Inácio França. Se for um tricolor bolsa-família, o negócio é ficar olhando o galeto assar na brasa, com 200 kg de fumaça para encher o bucho dele e dos filhos. O Clube Náutico, por exemplo, começou a Série B com 377 pontos à nossa frente. Eu não podia ver um alvirrubro passando de carro, que ele parava seu Citroen, abria a carteira e dizia: “Olha aqui o que temos sempre – dinheiro. Para a elite, não falta dinheiro. Já estamos na Série A de novo, porque nascemos para a elite”. O alvirrubro seguia para o restaurante Leite, para comemorar suas vitórias e sua maldição, o hexa. Agora eles têm uma nova maldição – a Arena, que vai minando a já frágil Torcida Citroen. Eu não respondia. Seguia para o bar Sukito, defronte ao 13 de Maio e pedia uma cerva, um tira-gosto e um quartinho. Juntando tudo, dá R$ 15,00 + R$ 2,00 do garçom. Pois bem de novo. O jogo de ontem foi sofrível Não fumo, mas ontem fumei uma carteira de Derby. Quem se preocupa com a saúde, durante um jogo do Santa Cruz, torce pelo time errado. Nada funcionava direito e o mais pessimista já olhava para o placar que não existe e pensava: um empate vai ser uma tragédia. E seria. Ontem foi a divisão do campeonato. Um empate, e estaríamos de novo na lona. Mas o time agora tem Grafite, e aquele noivado eterno dele com a bola. Diria que Grafite não...

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Já comprei a minha
ago21

Já comprei a minha

Ontem, aproveitei a hora do almoço e me mandei para o Tacaruna. Do Recife Antigo pra lá, foi bem rápido. O trânsitoestava tranquilo e calmo. Entro na Esposende, passo uma vista na loja. O movimento está meio fraco. Um sujeito moreno e quase careca se aproxima e, antes que ele me ofereça sapato,  eu já vou perguntando se tem camisa do Santa Cruz. Os olhos do vendedor brilharam. — Tem, chegou agora de manhã. – ele diz e me mostra a camisa na vitrine. Peço uma, tamanho M. Eu estava ali esperando o careca trazer minha camisa. Daí, um rapaz gordo, de bermuda estampada entra na loja com a irmã. A menina era um pouco mais velha do que o gordo, baixinha e era cara dele. E foi ela quem perguntou a vendedora se tinha a camisa nova do Santa e pediu uma tamanho XG.  E no final, ela fez um crediário. Com certeza era irmã do gordo. O careca vem vindo. Escuto ele comentar com uma moreninha, “puta que pariu, esse Santa Cruz é foda!”. Ela ri e balança a cabeça concordando. Puxei conversa com Careca. Perguntei como estavam as vendas e tal e coisa. Ele começou a falar de sapatos, mas levei o papo pro rumo das camisas. Careca me disse que num tem artigo mais fácil de vender do que camisa do Santa Cruz. — Dia dos pais, em agosto,  numa das lojas do centro, uma só vendedora mandou ver e vendeu praticamente 15.000 reais de camisas do nosso Santa. – ele comentou. — Danou-se, só uma loja vendeu  isso tudo? – perguntei. — A loja, não. Uma vendedora. É uma arrombada, né não? Entra um mago de mãos dadas com uma galega. Acho que era a namorada. A galega tem um piercing no nariz e uns olhos de peixe. O mago, vestido com o nosso padrão número um, é outro que chega para comprar a promoção da Esposende.  Ele pede uma, a galega pede outra. Quando vi a galega comprando, lembrei da primeira-dama. Tirei uma foto da camisa,  mandei pra ela e falei da promoção. Em poucos instantes, são cinco camisas vendidas.  O mago e a galega já saem da loja vestidos com o novo manto.  Vejo eles fazendo um selfie e dando uma bicota. Realmente, meu amigos, Careca tem razão quando diz que o Santa Cruz é foda.  Não sei quantas camisas foram vendidas até agora, mas pra nossa torcida a crise ainda não chegou. Eu mesmo, estou pensando seriamente em domingo ir até Feira Nova, prestigiar essa história do Santa Cruz sem Fronteiras. Imagino a farra como vai ser. Do jogo de hoje,  já estou com...

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