Exilado por um instante
jul30

Exilado por um instante

Por aqui, pra quem não é acostumado, o que é perto sempre é um pouco longe. Corri o que pude, mas só consegui chegar a tempo de ver os melhores momentos da primeira etapa e os quarenta e cinco minutos finais. Tenho pra mim que estar longe de um jogo como o da última terça-feira, deixa o sujeito mal-humorado, nervoso e chato. Eu, por exemplo, já sentei no sofá reclamando do empate. “Como é que o time faz um gol e dois minutos depois leva outro?!”. “De novo. Cruzou na área, essa defesa leva gol”. Até fazermos dois a um, fui só reclamação. Lembro que momentos antes, chamei Luizinho de “doente”, Lelê de “idiota” e Anderson Aquino de “burro”. A primeira dama até ironizou: “no jogo contra o Botafogo, tu devia ir assistir nas sociais”. Mas bastou Luizinho estufar a rede adversário, que o peso e o azedume foram embora. Corri pra janela e gritei pra toda Vila Mariana ouvir: é Santa Cruz, porra! Ao final, quando fechamos o caixão do Bahia, gritamos e pulamos feitos malucos. Até o cachorro do vizinho comemorou. Passada a euforia, uma mistura de alívio e saudade chegou de com força. Os amigos no Bar de Abílio, a Avenida Beberibe, a cerveja na beira do canal, o Tepan, a turma do Poço da Panela, a massa coral em festa. Ah, como eu queria estar ali pra abraçar o povão. Nessas horas, dá pra sentir um pouquinho o que sentem os infinitos exilados tricolores corais santacruzenses das bandas do Arruda por esse mundo a fora. A saudade não é do Recife, a saudade é do Santa Cruz. No próximo sábado ainda vou estar por aqui. Melhor ainda, é que o jogo contra o Oeste não vai ser mais em Itápolis. Vai ser em Osasco. E nossa sorte é que os limites do Arruda ultrapassam todas as fronteiras. Já tem uns exilados aqui em São Paulo se organizando para ir ver o Santa Cruz e eu vou no meio. Raul Cavalcanti, Danilo Souza e João Victor  confirmaram presença. Pra engrossar o cordão, meus amigos Paulo e Isabel, também irão. Só me falta aparecer um sanfoneiro, uma zabumba e um triangulo pra animar a festa. Mas aí é querer emoção passando da...

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Por onde vou, o Santa Cruz está!
jul25

Por onde vou, o Santa Cruz está!

Tirei férias. Juntei a família e me mandei para São Paulo. Por aqui, pra quem está acostumado com nosso belo calor, o frio é daqueles que faz o sujeito ajudar a economizar água do chuveiro. Por aqui, o povo continua andando avexado no meio da rua. “Papai, todo mundo anda correndo aqui, né?”, falou uma das pequenas. Quando entro no gozo das férias, sou daqueles que procuro me desligar de tudo. Faço questão de não atender ligações telefônicas. Evito as tais redes sociais. Pelo visto, vamos chegar num tempo em que o sujeito viajará e na volta não terá nenhuma novidade para contar. Muito menos fotos para mostrar. A turma sai de férias e se dana a mandar fotos por zap-zap, postar o que está fazendo no facebook. O que não consigo mesmo, é me desligar do Santa Cruz. Nem ele de mim. Ontem, levei as pirralhas para conhecer o Butantã. Por sinal, um passeio pra lá de agradável. E aí, num dos museus, encontro o nosso Santa em várias cobras corais. Mais pra frente, umas das programações do Instituto é deixar o público manusear algumas cobras. Avisaram que seria um jibóia e uma cobra do milho. Andamos, visitamos outro museu, paramos para fazer um lanche e no horário marcado fomos para o serpentário onde seria feita a atividade. A jibóia estava lá, mas a cobra do milho faltou. No lugar dela, a cobra coral. Hoje perambulamos pelo centro. Nas imediações da 25 de março, o movimento é grande. De camelô a cartomante, tem de tudo. Já no Mercado Municipal a turma não alivia no preço. Tirando o sanduba de mortadela, o sujeito paga caro e come pouco. Final da tarde, fui conhecer uns amigos novos. É que quando resolvi viajar para terra da garoa, comentei com Esequias. De pronto, ele me botou em contato com um casal paulista, Isabel e Paulo. “Gerrá, eles são gente fina. Ela é bem simpática. Ele, Paulo, é um Samarone da vida. São torcedores da Portuguesa”. Nos encontramos na saída do metrô da Sé. Em poucos minutos, estávamos sintonizados como se nossa amizade fosse bem antiga. Uma conversa boa danada na escadaria da Catedral que terminou logicamente num bar e o futebol foi o assunto principal. Perguntei a Paulo se eles estavam naquele jogo de 2005, na seribê, contra a Portuguesa. Falei que a gente tinha ido com a Sanfona Coral. “Não sei se você lembra, mas na torcida do Santa tinha uma turma tocando forró”, eu disse. “Claro que sim. Foi ali que vi que a torcida de vocês é fantástica. Tenho a maior admiração pelo Santa”. Paulo e Isabel tem os...

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Dor x Esperança
jul22

Dor x Esperança

O texto abaixo foi publicado no www.santacruzpe.com.br, o site oficial do nosso clube. Que por sinal, tá bem bacana e com notícias atualizadas. Fizemos questão de republicar, porque pra nós, Raniel é obra-prima que deve ser preservada. Não é só por Grafite que a torcida do Santa Cruz espera. Raniel, um dos mais habilidosos jogadores revelados pelas divisões de base do clube nos últimos anos, está treinando com o resto do elenco para só voltar a campo no mês de setembro, quando termina a punição imposta pelo STJD. Da suspensão e da cocaína encontrada em sua corrente sanguínea, qualquer um que acompanha minimamente o noticiário esportivo já está cansado de saber. O que poucos torcedores sabem é que, com ele dentro de campo ou proibido de jogar, o clássico Dor x Esperança é jogado todos os dias no coração de Raniel. Desde pequeno, Raniel conhece o sofrimento de perto. Ainda criança, quando tinha apenas seis anos, seu pai morreu. Como e do quê,  não sabe. Nunca lhe contaram. “Só sei do rosto dele porque já vi umas fotos, mas não tenho lembrança nenhuma”. Atenção e carinho da mãe era uma coisa tão rara que uma ex-patroa dela, dona Dione, não aguentou ver o menino largado em casa, sem banho, sem roupas, sem cuidados e se ofereceu para criá-lo. Dos oito aos 16 anos, Raniel viveu na casa dessa mulher, uma senhora cujos filhos já eram adultos. Ela pagou escola particular para o menino que, até hoje, só se refere a ela como “minha mãe”. Graças a Dione, ele pôde estudar até o oitavo ano do Ensino Fundamental e treinar na escolinha do Santa Cruz. Nessa época a Esperança virou o jogo e ganhava de goleada. O contato com a mãe biológica era mínimo e isso não era coincidência. Uma tarde, quando voltava do treino de Futsal na quadra do clube, ele estranhou a movimentação em frente à casa onde vivia, perto do clube Madeira do Rosarinho. ‘Mãe’ Dione havia sofrido um ataque cardíaco e morreu no hospital. “Chorei sem parar, foi o dia mais triste da minha vida”. Naquele instante, a vida de Raniel havia mudado completamente. Não havia outro jeito: ele teve de voltar para a casa da mãe, que a essa altura morava numa favela em Chão de Estrelas. Crack, cocaína e maconha passaram a fazer parte da rotina de todos ao seu redor. Era a Dor tomando as rédeas da sua vida novamente. “Todo mundo que eu conheço lá, cheira e fuma, mas eu sempre me mantive longe porque só tinha uma coisa na cabeça: ser jogador de futebol”. Nesse período, as únicas refeições saudáveis que...

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O dia seguinte…

Amigos corais, estou começando a me preocupar com os momentos antes dos jogos do Santa. Explico. Como não podemos mais beber durante o jogo, estou mandando ver antes. E com cano de ferro. Vou resumir para facilitar. Domingo, lá pelas nove horas, acordei. Lembremos que o jogo foi no sábado, 16h30. Olhei o cenário. Eu estava no colchão da sala, ainda com a camisa do Mais Querido, ainda com a camisa que vou para todos os jogos. O placar? Não lembrava. Quem encontei antes do jogo e como cheguei em casa? Nada. Minha mulher acordou e perguntou: “E ai, Barba, como foi o Santinha ontem?’ Glub. “Ahm, foi legal, mais uma vitória”. Ela foi tomar banho e liguei o rádio. Porra, será que ganhamos mesmo? Notícias do rádio: Lava-jato, o aloprado do Eduardo Cunha, crise, crise, crise, o Brasil só pronuncia esta palavra. “Vamos agora à resenha esportiva…” Opa, é agora. Fiquei torcendo por uma vitória. “A cobra fez bonito: três a zero no Atlético”. Ufa… Detalhes dos gols. Eu só lembrava de alguma alegria, mas tudo era uma grande amnésia. Silvinha saiu do banheiro. “Quanto foi mesmo o jogo?’ “Três a zero”, respondi com uma rara certeza, já estufando o peito. Depois fui ao Poço da Panela. Naná disse que me viu antes do jogo, me deu dois ingressos que tinha sobrando, que conversei com ele etc. Alguém por aí tem os telefones do pessoal do AA, aqui na região da Boa Vista ou Santo...

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O foda é a morgada…

Amigos corais, o sujeito ser cronista semanal do Santa Cruz Futebol Clube é quase viver com transtorno tripolar. Vejam a última crônica do senhor Gerrá Lima. Uma ode à vitória contra o CRB. Ele narra o segundo tempo. O Santa com com um homem a menos (após virar o primeiro tempo perdendo de 1 x 0), o campo molhado, chuva que só a gota, dez mil abnegados torcendo, e  o que faz o Mais Querido? Joga 45 minutos de encher os olhos, vira o jogo e arranca os três pontos. Então vem o jogo contra os alvirrubros, no sábado, naquela desgraça da Arena. Segundo tempo com um jogador a mais (após um primeiro tempo meia boca total), o que faz o Santinha? Não joga nada, leva o segundo gol e perde o jogo. Terminou o jogo, fiquei com aquele sentimento de morgação na boca. Uma semana inteira com os duas-cores rindo à toa, cantando loas. Hoje, não vou ver TV, nem escutar rádio, nem espiar jornais. É a famosa Morgada, com M maiúsculo. Só fui para aquela desgraça da Arena num jogo contra a Luverdense, para nunca mais. Sei que a diretoria anterior negociou cinco jogos com a Arena, para esta Série B. Parece, inclusive, que é a própria Arena quem escolhe os jogos. Ou seja – fica só com o filé. Já imaginaram Grafite fazendo a estreia na Arena, e não no Arruda? Escutem o que eu digo – se a gente for mesmo disputar 15 pontos naquele lugar sem alma, sem história, sem memória, sem a força da massa coral, estamos numa fria. Por hoje é...

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