O Santa Cruz mandou nos chamar
fev26

O Santa Cruz mandou nos chamar

Perdi quase todo o primeiro tempo de ontem. Assim que entrei no carro para ir pra casa, liguei o rádio e ouvi o  locutor anunciar que o Santa Cruz perdia por um a zero. Desanimei na hora. Pra morgar mais ainda, o comentarista avisa que com aquele resultado a gente ficava na lanterna. Pensei até em mudar de estação e ouvir música. Mas aí, o rádio grita goooool do Santa e a esperança faz um retorno e vola. Aumento o volume do rádio, piso no acelerador e consigo chegar em casa a tempo de ver os  melhores momentos. Começa o segundo tempo. O Raniel joga muito, falta apenas uns pequenos ajustes. Moisés é de uma ruindade inexplicável. Vejo que nosso time tem chances claras de vencer o jogo. E fiquei ali, sentando na cama, com os olhos grudados na TV e torcendo feito um condenado. Quando Betinho fez o gol da virada, por pouco não acordei o condomínio com meu grito. Minha mulher cochilava do lado. Tomou um susto arretado, mas logo em seguida abriu o sorriso e disse: — domingo a gente vai, né? — tem calma. o jogo não acabou, ainda. Partida encerrada e a doidice toma conta da massa coral. Meu zap-zap não para apitar. “Ô, Ô,Ô, Betinho é matador”. “Essa catita é minha freguesa. Desde 2013 é só lapada”. “Triiii”. “Domingo, eu vou”. “Eu também”. “Quem mais vai, sou eu”. Samarone, cheio de cerva na cabeça, telefona. O bicho ainda estava na casa de Pedoca, onde assistiu ao clássico. Sama faz uns comentários sem pé nem cabeça sobre o jogo. Comento com ele que em 2013 nossa arrancada começou justamente com uma lapada no Clube Barbie Capibaribe. Aviso que já estamos no G4 Nosso poeta sentencia. “Gerrá, agora é com a torcida. Sempre foi assim. Domingo pode ser aonde for, mas a gente tem que ir”. Ele está certíssimo. Tenho pra mim que até Inácio vai. Hoje cedo, Naná já ligou pra saber se vamos alugar uma Van. Não sei se de Van, metrô ou táxi, só sei que eu vou. A hora é de deixarmos um pouco de lado as convicções e a coerência, de dar folga a chatice e nos mandar para o jogo de domingo. O Santa está nos chamando.      ...

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Não conheço ninguém que vai
fev25

Não conheço ninguém que vai

Quase toda semana, marco com alguns amigos para trocar umas ideias no intervalo do meio-dia e manter a amizade acesa. Hoje, pra evitar discussões bestas, resolvemos barrar dois que são torcedores do Club da Abdias. Na roda da conversa, o prato foi o jogo de logo mais contra a Barbie. Coincidência ou não, nenhum dos presentes vai para o jogo. — Meu amigo Gilvan mora perto da Arena. Não vai para o jogo. Artur, estagiário de Contabilidade, mora em Camaragibe e também não vai. Aí eu pergunto: imaginem eu? Vou não! – mandei minha fala. — Vou nada. Só se fosse para dormir lá e voltar de manhã. – disse Moacir. — Eu também, num vou! Cinquenta reais o ingresso! Tu é doido. Dou não. E ainda tem transporte, água e outras porra! Vou nada! – falou Jaime. — Já combinei com um esquema. A gente vai assistir pela televisão, tomando cerveja, comendo uns tira-gostos e fazendo amor. – afirmou Adalba. Stanislau foi mais enfático. Ele é revoltado com a construção daquele estádio. Mandou algumas autoridades para a putaqueopariu, meteu o pau no ex-governador, esculhambou a Federação e a Globo, culpou também os cartolas e a CBF. Ficou invocado. Em alguns momentos deu até murro na mesa. — Só fui naquela desgraça, uma vez. No jogo contra o Vasco. Foi sufoco pra chegar, para entrar e para sair. Vai te fuder! Vou nem a pau. Não tem uma barraca do lado de fora pro cara tomar uma cerveja. Um breu do carai, quando acaba o jogo. Tudo caro, lá dentro. Aquilo ali já nasceu morto. E continuou. — Aquela Arena é uma das maiores vergonhas que já se produziu em Pernambuco. Muito pior do que a Dantas Barreto, o Parque Dona Lindu ou o Memorial Arcoverde. Um bocado de besta foi atrás da conversinha mole de Dudu e caiu no conto do vigário. Taí, os cofres do governo pagando pra fechar a conta da Arena. VTNC! Concluiu com a seguinte frase. — Quem quiser que vá. Gosto e sovaco, cada um tem o seu! Levantamos, pagamos a conta e saímos à passos lentos. Na Rua da Moeda cumprimentamos Chico Science. — Esse aí tem a cara do Santa Cruz. Lá no clube, devia ter umas estátuas dessa turma que torce pelo Santa Cruz – comentou Moacir. E seguimos driblando o calor. Paramos na esquina da Mariz e Barros com a Vigário Tenório, assistimos a uma partida de dominó. Depois nos separamos e seguimos de volta para o trabalho. Até agora, não encontrei ninguém que vai se aventurar a ir para o nosso jogo hoje à...

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Nem eu!
fev23

Nem eu!

Amigos corais, sou um distraído convicto, por isso já me livrei de muitas frias. Não percebia as picuinhas nas redações de jornais, conversava amenidades com quem queria me ferrar e perder vôos, esquecer malas e outras coisas, a gata fora de casa, são fatos já assimilados como normais pela minha companheira Sílvia. Quando o assunto é futebol, sou o mesmo. Teve um jogo em que fiquei  soltando os cachorros num lateral direito, chamava-o pelo nome direto, ele não acertava um cruzamento, até que teve uma hora que um torcedor tirou o fone do ouvido e me disse: “Fera, esse cara não está jogando hoje não” Glub. Domingo passado comecei a me redimir. Fui ao estádio com radinho de pilha e tudo o mais, para saber o nome de todos os atletas corais e depois falar de cada um, em nossa mesa-redonda coral, que está em fase de conclusão. Que maravilha! Logo me encantei com o futebol de um sujeito chamado “Biteco”, que tem cara e jeito de Santa Cruz. Cabeludo, cheio das manhas, toques rápidos, habilidoso. Estava botando fogo no jogo. No segundo tempo a coisa, quero dizer, a situação, melhorou. O Santa mudou o lado do campo, e pude ver Biteco bem de perto, perdão pela frase desaprumada. Demais. O sujeito literalmente pedia a bola. Estava com fome de bola. Toques rápidos, passe bom, eu já tinha meu primeiro ídolo de 2015 – Biteco. Tinha um bufão debaixo da barra chamado Bruno. Não sei qual foi o insight de genialidade para trazer, como titular, um sujeito que está, literalmente, em fim de carreira. A todo instante, o peseudogoleiro passava insegurança ao time. Sempre dando socos na bola, hesitando, fora que não conseguia bater um tiro de metal. Era cada bola osso para Renatinho, que eu vou dizer. Na primeira chance que teve, fez uma lambança (fez que saiu mas não saiu numa bola fácil) e levamos o gol. O castigo. Mas estávamos a 15 minutos, teríamos uma boa meia hora para empatar e virar. Eu estava confiante. Biteco estava afim de jogo. Pois bem. “Substituição no time do Santa”, anuncia o locutor. Quem será, pensei. Quem será que vai chegar junto para fazer tabelinha com Biteco e furar a retranca salgueirense, pensei de novo. “Sai Biteco”, diz a rádio. Aqui vai outra confissão, meus amigos. Eu não entendo uma vírgula de sistema tático, a diferença entre um volante e um meia me parece uma raiz quadrada, mas faltou pouco, neste momento, para que eu jogasse o rádio no chão. Soltei o maior palavrão que me ocorreu. Saí andando pelas arquibancadas, pensando “estou doido, estou doido, só eu vi esse cara jogando...

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Goleiro ruim não merece segunda chance
fev22

Goleiro ruim não merece segunda chance

Voltei. E voltei em dúvida: desço a lenha em Ricardinho ou no goleirinho? Começarei com o vigia da barra, mesmo achando que o verdadeiro responsável tem cabelos grisalhos, é metido a bem educado e estava do lado de fora do campo. Escolho o goleiro porque estou com vontade de mudar o nome do meu filho caçula. Não estou conseguindo chamá-lo de Bruno. Da avenida Beberibe até em casa vim chamando o pirralho de pirralho. ‘Pirralho, quer comer alguma coisa?” ou “Vai tomar banho pirralho”. Se for chamar de Bruno vai ser pra mandar à puta que o pariu. E o bichinho não merece isso. Nem a mãe, uma verdadeira santa (apesar da gente ter chegado do jogo às nove horas e ela ainda não estar em casa). Quando se está com raiva é preciso cuidado pra não perder o fio da meada. Toda vez que Tiago Cardoso se machuca é esse deus-nos-acuda. Sem o paredão, não subimos em 2012. O esforçado Fred até que faz o trivial básico, mas não milagres. No ano anterior, suportamos as trapalhadas do mã0-de-lodo André Zuba, um rapaz que tinha tudo para ser bancário ou comerciante de secos & molhados, mas inventou de pegar no gol. Pior: no nosso gol. Agora. esse tal de Bruno. É uma sina. Mais do que sina, é bola cantada. Quando anunciaram a sua contratação, a primeira coisa que todos tricolores lembramos foi a imagem dele com bola passando por debaixo das pernas, num jogo do Palmeiras na Libertadores. Um peru clássico. Como se contrata um goleiro que se notabilizou por um frango? Goleiro tem que ficar conhecido por uma defesa arrojada, por uma saída corajosa, por um pênalti que espalmou. Ninguém contrata um atacante famoso por perder muitos gols. E goleiro que papa frango não merece segunda chance. Essa frase é de Gerrá e eu a roubei para usar aqui. Verdade se diga: Bruno vinha se esforçando para engolir uma bola desde o primeiro jogo. Só escapou porque Bileu, Léo Veloso e a zaga foram mais incompetentes que ele. Contra a Salgueiro, o inevitável aconteceu. A insegurança do frangueiro é tão grande que a torcida, com um humor finíssimo, comemorava como se fosse gol toda vez que ele saía do gol e segurava a bola, sem socá-la desesperadamente. Quem estivesse do lado de fora, pensaria que estávamos vencendo de goleada. Acabo de ler o que ele disse no fim do jogo (um elogio: ele se comportou com dignidade, dando entrevistas a torto e a direito enquanto escutava as vaias a que fazia juz) e concordo que a culpa não pode ser jogada só sobre seus ombros. Quem o...

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Começou o ano!
fev19

Começou o ano!

Sob o efeito da ressaca de carnaval, consegui assistir ao jogo. Como quase todo mundo, estava torando aço. A torada foi maior quando vi que o time ia com Betinho na frente. “Pqp, se empatar já vai ser um grande negócio”, eu pensei. Demorei uns cinco minutos para entender a escalação. Renatinho tava na lateral-esquerda e Emerson Santos fazia a dupla de ataque junto com o perronha do Betinho. Enfim, pra mim que só começo a acompanhar futebol depois do carnaval, tive que esperar aparecer a escalação na tela da TV para saber quem estava em campo. E não me animei. Com dez minutos de jogo, pensei em desligar a televisão. “Pqp, tá foda, vou dormir”, pensei. Pra completar, Inácio me manda mensagem pra lá de desanimadora. “Renatinho tá louco. A zaga é de manteiga. Biteco é um mole. Emerson e João Paulo estão de ressaca”. Entrei na sintonia dele e respondi. “E esse Moisés tá na profissão errada”. E tá mesmo, faz tempo que não via um lateral-direito tão ruim quanto esse. Esse Moisés deveria estar trabalhando como corretor de seguros, vendedor da Eletroshopping ou algo parecido. E quem o contratou deveria ser chicoteado na entrada da nossa sede. Pensei em dormir e quando vou me aprumado no travesseiro e pego o controle para desligar a televisão, eis que Betinho tem um lampejo de pivô e ajeita a bola para Biteco mandar com categoria no canto do goleiro. Corri pra lavar o rosto, dei uma mijada e me posicionei de novo para ver a partida. Três minutos depois, numa pixotada de Alemão e do já citado lateral-direito. (Jogadorzinho sem alma, esse Moisés. Preparem-se, porque este indivíduo ainda nos vai dar muita tristeza e revolta). Fiquei tão invocado que perdi o sono. Fui tomado por um pessimismo tão grande que torci fervorosamente para que o jogo acabasse já no primeiro tempo. Mas eis que o futebol é realmente uma caixinha de surpresas. O Santa Cruz volta do intervalo com uma formação corajosa. Três atacantes. Ricardinho mostra que não é frouxo e vai pra cima, afinal de contas só a vitória interessava. Nosso escrete mostra outro futebol. Alemão e Edson Sitta são nossos rotrweillers. Pra minha alegria, baixam o pau no adversário. Bileu concerta o buraco na lateral-direita. Renatinho dá o sangue na esquerda.  João Paulo mostra compromisso e vai ajudar na marcação. Biteco comanda as armações de jogada. E eu começei a ver que o nosso gol sairia a qualquer momento. E saiu. De novo, Betinho faz o pivô e ajeita pra João Paulo. Golaço. Estou acordadíssimo. “Esse João Paulo sabe jogar”, eu penso. Samarone telepaticamente concorda comigo e...

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