Nóis sofre, mas nóis goza
abr30

Nóis sofre, mas nóis goza

Estudei com Bruno Cara de Vassoura. Gente da melhor qualidade. Tricolor coral Santacruzense das bandas do Arruda. Em se tratando de futebol, para ele todo diretor é ladrão, todo jogador é cachaceiro e todo técnico é burro. Mulher de rubro-negro só fode com tricolor e o náutico é um time de moças. Bom de bola, era titular absoluto no time do colégio. Jogava no ataque. Exímio cabeceador e chutava bem pra caramba com a canhota. Numa partida pelos jogos estudantis, lá no campo da UFRPE, fez dois golaços. Foi contra o Salesiano, Marista, sei lá! Enfim, um desses colégios de padre. A gente perdia de um a zero e ele virou o placar. O primeiro gol, uma cabeçada certeira no ângulo. O segundo, uma cipoada de fora da área, daquelas que o goleiro não ver nem o azul da bola. Neste gol, Cara de Vassoura foi expulso porque comemorou mostrando o pau pra torcida adversária. Mas conseguimos segurar o jogo e vencemos. O bicho era meio doido, impaciente e esparrento. E presepeiro, também. Certa vez, num amigo secreto da turma do segundo ano, ele deu de presente a uma colega nossa, uma calcinha bem escrota com o escudo do Santa Cruz. — Isto aqui é pra você usar quando a gente for campeão! – ele disse querendo ser carinhoso. A garota jogou a calça no chão e foi uma confusão dos infernos. A menina não gostou da brincadeira. Nem lembro o nome dela e não sei se ela torcia pelo Santa. Mas Bruno era estudioso. Até passou no vestibular. Foi cursar Engenharia Cartográfica, depois mudou para Administração de Empresas. Eu fui para o curso de Ciências Econômicas. Quase sempre a gente matava as aulas da sexta-feira e tomava uma no Abacaxi. Fazia tempo que eu não via Bruno Cara de Vassoura. A última vez, se não me falha a memória, foi na saída do jogo contra o Betim, no ano passado. Falei rápido com ele. E não é que ontem, eu encontrei aquele sujeito! Era perto das quatro da tarde. Fui resolver uma bronca em um cartório na Siqueira Campos e por obra do destino, dou de cara com Cara de Vassoura. A mesma barba, o mesmo bigode, meio careca e mais gordo. O mesmo esparro de sempre. — EI TRICOLOR! Tás perdido? – ele falou chamando a atenção de todo o cartório. Me deu um abraço. — Diz aí, Cara! Tás bem? Novidade boa. Tens feito o que da vida? – eu perguntei. Cara de Vassoura se separou, tem mais ou menos três meses. Depois de quase dez anos de casado. Enquanto organiza as coisas, está morando na...

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A tabela, o melhor antidepressivo
abr28

A tabela, o melhor antidepressivo

Aos que ainda estão choramingando a eliminação da Copa do Nordeste e da final do Pernambucano, aos que acham que estamos no pior dos mundos, que as coisas estão péssimas, que tudo está ruim, que estão com aquela conversa fiada de que só vão voltar ao Arruda por algum motivo muito especial, eu dou uma sugestão prática – pegue a tabela da Série B, puxe a sua agenda para o lado e vá anotando, semana após semana, os jogos do Santa Cruz, no Arruda e fora. Vai durar meia hora e a depressão vai passar na hora. Foi isso o que fiz sexta-feira, antes mesmo do jogo contra os portugueses de desportos. Anotei com caneta todos os jogos e horários. Senti um alívio tremendo. Pela primeira vez, desde o longínguo ano de 2008, quando fizemos a estreia na Série C, estamos de volta a um campeonato nacional com 38 rodadas. Foram sete anos na base de poucos jogos e mata-mata, pouco dinheiro, fora da TV, com uma sortezinha de transmitirem a Série C pela TV Brasil. Trinta e oito rodadas, porra! Nós comemos o pão que o diabo amassou, jogamos contra times que nem lembro o nome, viajamos feito uns doidos em carreatas de desepsperados, passamos por humilhações as mais terríveis, vimos o fundo do poço e o pós-fundo-do-poço e agora fica esse faniquito? Olhe sua agenda de 2008. Lembra que nós fomos eliminados na segunda fase da Série C? E que beijamos a lona na Série D? Tem coisa pior que isso? Pois pegue a tabela da Série B e veja o que nos espera, ao longo do ano. Dois jogos por semana, às terças e sábados. Vamos ao caso de maio, o singelo maio, mês das mães. Na véspera do meu aniversário (2/05), sexta-feira que vem, pegamos o Paraná, no Arruda (21h). Dia 10 de maio (sábado), pegamos a Luverdense, às 16h20. Dia 17 de maio (sábado seguinte) vamos ao estádio Mauro Sampaio, pegar o escrete do Icasa. Dia 20 de maio (terça), vamos ao estádio Dos Amaros, enfrentar o Oeste. Dia 23 de maio (sexta), 19h30, pegamos o America-MG no Arrudão. Dia 27 de maio (terça), vamos ao estádio Dilzon Melo, encarar o Boa Esporte. Dia 30 de maio (sexta), encaramos a Ponte Preta, no Arrudão. Ou seja: Em um mês, é bem provável que tenhamos mais jogos pela Série B do que em toda a Série C de 2008. Eu poderia copiar a tabela inteira, para os deprimidinhos corais verem o tamanho do buraco que saímos (e o tamanho do desafio que nos espera), mas não sou corno para gastar uma hora e meia anotando...

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Quando pior melhor?
abr25

Quando pior melhor?

Sem rodeios, vou direto ao ponto: o único resultado do “protesto” de ontem foi destruir o imenso patrimônio imaterial construído com o esforço de milhares de apaixonados que lotaram o Arruda “n” vezes em 2013. A valiosa mística da torcida apaixonada sofreu um imenso revés. De uma hora para outra, a torcida coral lançou-se à vala comum dos trogloditas de tantos clubes pelo mundo afora. O estrago foi muito maior do que a porta do vestiário ou algum eventual arranhão no carro do presidente. Prejuízos são grandes demais para serem enxergados a olho nu. O mais incompreensível é que o tal “protesto” foi completamente desproporcional aos fatos que o geraram. Encurralar diretores, berrar gritos de guerra, ameaçar jornalistas, arrombar portas, invadir vestiários porque o time de futebol foi eliminado de duas competições, de forma justa diga-se de passagem? Porque dois ou três jogadores demonstraram incapacidade de suportar pressão, o que é comum quando se fala de seres humanos? Porque os rubro-negros estão greiando da nossa cara? Vamos convir, quem não quiser ouvir graça por causa de futebol, é melhor dedicar-se apenas à seleção brasileira. Ou ao tricô. Tudo o que aconteceu com o Santa Cruz faz parte do futebol. O time andava de salto alto no início do semestre? É verdade, mas a torcida também estava tão intragável quanto rubro-negros. Pelo jeito, a queda do salto desnorteou a todos. A diretoria confiou e concedeu poderes em demasia ao ex-treinador? Pode ser, dizem que sim. Mas a torcida também o idolatrou, jurando de pés juntos que um nó tático estava prestes a ser dado em todos os adversários da terra e do céu. A comissão técnica e os diretores de futebol erraram em contratar pouco e mal? Com certeza, mas em janeiro nós torcedores éramos capazes de morrer jurando que Caça-Rato e Renatinho resolveriam todos os nossos problemas. Eu fiquei arretado com as derrotas. Todos ficamos. Qualquer torcedor fica. Mas no mundo do futebol, isso se resolve com estádio vazio, vaias de arrombar, faixas raivosas, críticas descabeladas, exigências ululantes. E pronto. O novo treinador não é o dos meus sonhos. Não, não é. Eu preferia Pep Guardiola – também não vou com a cara de Mourinho. Mas só vou largar pau no teclado para criticá-lo depois que ele botar o time em campo. Aqui no meu canto, fico lembrando de Cuca e Paulo Autuori e espero pelo que virá. O que Cuca tem a ver com isso? Quando ele foi para o Atlético Mineiro diziam que ele não ganhava nada, era um chorão e que Ronaldinho Gaúcho iria comê-lo com farinha. Ganhou a Libertadores. Paulo Autuori, ao chegar no mesmo...

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Notícias para Samarone

Samarone, cabra bom! Voltei! Não sei se Inácio já retornou. Sexta-feira ele telefonou pra mim, todo animado. Estava na 232, indo para um hotel fazenda na região do Agreste. Eu saí do Recife já na quinta-feira. Juntei a família, entupi a mala do carro de comidas, bebidas, roupas, ventilador e brinquedos, pendurei duas bicicletas na traseira do veículo e me mandei para praia. Peguei leve na noite da quinta, apenas um vinhozinho e uns petiscos com a patroa! Mas na sexta, enfiei o pé. Incentivado pelo marido de uma prima minha, entrei na aguardente. O sujeito é lá de Santa Cruz do Capibaribe e é daqueles que tem a cachaça como bebida preferida, depois vem o uísque e por último a cerveja. Passavam das 10 horas, quando chegamos à praia. Mal sentei e ele foi pedindo uma cerveja e um quartinho de cana. Eu ainda tava sentindo o gosto da vitamina de banana que havia bebido no café da manhã. No começo, peguei leve. Só que o miserável saboreava a Pitú e vez por outra, lavava a goela com um copo de cerveja. Fui entrar na onda do fela-da-puta e quase me lasco. Minha sorte foram os mergulhos e uns caldos que levei das ondas do mar. Puxei o freio de mão e fiquei só na cerveja pelo resto do dia. Voltamos pra casa e aí, puxei do frei de mão. Fiquei só na cerveja pelo resto do dia. Tacamos um pen-drive cheio de bregas e forró, e ficamos bebendo e comendo. E sabe quem tava? Parral. Meu amigo, pense que o bicho bebeu e comeu! Eu tenho pra mim que o estoque de tomates acabou naquela tarde. E tu não sabe da maior, não é que no sábado resolvi ir pro jogo no Arruda. Liguei pra Claudemir oferecendo carona e ele topou ir junto. Arrastei meu pai e o marido da minha prima, também. Fazia mais dez anos que eles não iam ao nosso estádio. Pois é, meu amigo! Fui ver o último jogo da era Vica. Vou lhe dizer, não fosse o futebol um esporte tão dinâmico e cheio de surpresas, eu apostaria que o Santa Cruz e o ABC iriam brigar pra ver quem chegava em último lugar nessa seribê. E lhe digo mais, pelo que vi, se a gente não descer, eu já me dou por satisfeito. Pra não dizer que foi de tudo ruim, o garoto Raniel mostrou serviço. O bicho só precisa pegar mais uma musculaturazinha e um pouco mais de experiência. Mas o menino tem futuro. Voltando para praia, depois que deixei Claudemir, pelas ondas do rádio eu ouvi Vica entregando o...

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Recolhendo os escombros

Amigos Inácio França e Gerrá Lima; Não sei por onde vocês andam, nesta segunda-feira, feriado de Tiradentes. Creio que em alguma praia com a mulher e os filhos ou tomando umas com os amigos. Pela quantidade de comentários a serem liberados no Blog do Santinha e pela última crônica, postada dia 15 de abril, vocês realmente perderam a paciência. Pois bem, amigos, tenho uma nova. O treinador Vica agora é ex. No sábado passado, após o empate melancólico com o ABC (o gol deles foi de Dênis Marques, vejam que ironia), finalmente ele passou na sala da diretoria e disse o óbvio – “não dá mais”. O que mais lamento, meus amigos, é que o homem chegou com o time muito mal na Série C, deu um tranco, um freio de arrumação, o famoso “só joga quem treina bem”, e embalamos. E fomos campeões da Série C. Depois disso, amigos, mergulhamos num desastre. Porque um time de futebol pode perder tudo, menos a alma. O Santa, nos últimos jogos, não era nem a sombra daquele time de guerreiros que tantas alegrias nos deu, durante três anos. Perdeu a alma. Depois de muito tempo, vivemos um pesadelo trágico – um Santa Cruz com medo de ir ao ataque, de ganhar jogo, sem arrojo. Sem a alma, não há como ter coragem. Sem coragem, o sujeito é humilhado até na liga de dominó. Nosso time ficou burocrático como uma repartição pública, funcionando a base de máquina de datilografia e carimbo. Faltou pouco para os jogadores escreverem um ditado antes de cada jogo, com a frase “proibido se arriscar” ou “nada de assustar o adversário”. Nossa maior desilusão era olhar para Catatau, sonhando com mudanças no time que todos sabiam quais eram, e nada. Nunca Roberto Carlos foi tão citado. “Perdemos nos detalhes”. “Eles venceram num detalhe”. “Clássico se perde no detalhe”. Pois é, caros França e Gerrá. Estamos ainda recolhendo os escombros. Eliminação da Copa do Nordeste e do Estadual. Tudo bastante dolorido, sofrido. Onde estão Natan, Renatinho, Everton Sena? Onde estão os jogadores? O outro, que bateu o pênalti errado, ficou deprimido. Mas ele vai buscar o salário integral ou não? Não fui ao jogo do sábado. Ausência absoluta de vontade. Não li resenhas, não escutei rádios, nada vi na TV. Demoras, no futebol, são fatais. Nisso, nosso principal rival é muito eficiente. Se tivessem perdido três partidas seguidas para nosso time, o técnico teria sido demitido depois do jogo. Era o que deveria ter sido feito. Mas vocês sabem como as coisas funcionam no Arruda… Aguardo o retorno de vocês para ver se animamos o espírito da massa coral....

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