Ilusões Perdidas
mar16

Ilusões Perdidas

De Colônia, Alemanha. Pois é, amigos. Depois de dez anos de angústias e retomadas, parece que voltamos à estaca zero. Estava nesta última sexta no aeroporto de Londres aguardando meu voo para Alemanha, numa manhã cinzenta e azeda. Sentei para tomar um café e comecei a pensar na vida. Voo atrasado, estresse insuportável no trabalho, sérios problemas pessoais e duas derrotas humilhantes pra coisa (vou ignorar o manual de redação do blog e dar o nome aos bois). Como dizia Shakespeare, quando os problemas vêm, eles não vem desacompanhados, mas em batalhões. O sujeito tenta peitar a vida de cabeça erguida e acaba achincalhado pelas mazelas do dia a dia. Nessas horas, vem à cabeça o aterrorizante problema filosófico de Camus, será que vale a pena viver? Fomos humilhados e ofendidos, não só no gramado mas fora dele também. Tudo começou com uma notinha grotesca publicada no site oficial da coisa no dia 6 de março. Com um português macarrônico, pedante e ambíguo, típico da nossa elite de bacharéis, a coisa publica uma nota oficial em que acusa a Federação Pernambucana de Futebol de conspirar para atingir o “equilíbrio das forças locais”, um bendito de um eufemismo! Li aquilo indignado – logo a coisa, acusando a FPF de trambicagem! Justo eles, dos quais um conhecido ex-presidente já afirmou ter “empurrado” um jogador pra seleção. “Onde estão as provas? E ainda saíram ilesos?”, pensei comigo mesmo. Numa reviravolta mirabolante, os próprios donos do poder se passavam por vítimas inocentes. Perdoem-me o trocadilho, mas alguma coisa estava errada nesta história. Eu cresci ouvindo ano após ano os presidentes da coisa arrotarem uma superioridade inquestionável, uma espécie de privilégio que por vezes se confunde com um direito natural. Nunca vi um dirigente da coisa aceitar uma derrota sequer. Leiam os jornais ou ouçam as entrevistas dos três últimos anos e vocês verão que todas as vezes que ganhamos deles, nossa vitória foi atribuída a erros da arbitragem, no mínimo! Neste mesmo ano, num ato de soberba inigualável, a coisa cogitou retirar a estrela que remete a sua conquista da segunda divisão, pois não acha digno celebrar uma façanha tão irrisória. Esse complexo de superioridade foi incrustado na cabeça do povo lentamente e, com o passar dos anos, parece que pegou. Penso nos meus amigos rubro-negros e alvirrubros, e mesmo nos meus professores no colégio, e lembro que o torcedor tricolor era visto como um pária, uma figura grotesca cuja existência escassa na zona sul do Recife se devia ao único fato de que ele estava ali para servir os outros. Era o famoso “servente” ou “serviçal”, a quem se reservara o infame...

Leia Mais
Papéis trocados
mar13

Papéis trocados

Sou um homem crédulo na humanidade e no que as pessoas podem ter de melhor. Quase um ingênuo. Meio distraído diante das inúmeras televisões do restaurante onde estavam a cúpula do Blog do Santinha e alguns agregados, a primeira impressão é que os jogadores do Santa Cruz usavam camisas rubro-negras e os atletas do Sport vestiam a tradicionalíssima camisa branca com duas listas, no que talvez fosse uma bela experiência dos defensores da cultura de paz nos estádios para acabar com a violência e promover a fraternidade universal entre as torcidas. Qual nada. O Santa Cruz era o Santa Cruz e o Sport era o Sport mesmo. Os papéis é que estavam trocados. O Santa atacava inutilmente como o Sport de 2011. O Santa abusava das ligações diretas longas e imprecisas como os Sport em 2012. O Santa rodava a bola para lá e para cá, sem rumo e sem direção, como o Sport em 2013. E como os treinadores, os jogadores, a diretoria e a torcida do Sport nos últimos três anos, o nosso time acreditou na ideia que tem mais conjunto, um time superior e nesse blá-blá-blá todo que não adianta nada quando se enfrenta um time com vontade, com uma marcação sufocante e que sabe que o adversário não é essa tampa de crush toda e que, por isso mesmo, vai errar, ora se vai. E foram muitos os erros. A derrota poderia ser até maior. Não podemos reclamar de nada, nem do juiz. Foi justo, justíssimo aliás. O problema é que os erros não foram apenas individuais ou dos jogadores, como Vica quis fazer crer na entrevista logo após a partida. Há um erro maior que antecede e provoca os outros miúdos, quase inevitáveis numa partida de futebol. Nosso treinador é um bom caráter, é o que dizem. Homem de bem, esforçado, sem papas na língua, honesto e que conhece de futebol. Talvez não conheça tão bem assim a alma humana.Se conhecesse, teria percebido que nosso time tem alma de operário, espírito de gente que precisa brigar para ser ouvido e ser alguma coisa na vida. Reparem que eu disse “ser” e não “ter”. Quem arrota ter tudo – dinheiro, troféus, arenas – são os outros. Não dá para, de um dia para o outro, esses time de guerrilheiros se comportar como se fossem marechais ou almirantes. Ou para retomar a metáfora mais marxista, para botar banca de novos ricos amostrados e perdulários. Nosso treinador, contudo, passou a acreditar que ser campeão da série C é o mesmo que ganhar, digamos, a Liga dos Campeões. Agora, ele quer que o time jogue para cima, “imponha seu...

Leia Mais
Vem aí o volume III, o livro vermelho!
mar05

Vem aí o volume III, o livro vermelho!

Tudo indicava que a quarta-feira de cinzas seria isso que o nome já diz: uma quarta-feira perdida, cinzenta, nem preta nem branca, nem alegre nem triste, morna e sem graça, com Gerrá de ressaca, eu me curando uma virose que me lascou bem no carnaval (sim, estava na Minha Cobra, mas sob efeito de um doping federal) e Samarone na estrada indo babar o sogro em Garanhuns. Eis que chega a notícia: O volume III da Trilogia das Cores, vulgarmente chamado de Livro Vermelho, está pronto, tinindo, com cheiro de pão novo saindo do forno. Não sei se os caras da gráfica deram duro no carnaval ou ele ficou pronto a semana passada e só avisaram hoje. Acho que a segunda opção, mas isso não tem importância nenhuma e nem sei porque levantei essa dúvida besta. Prossegue o caminho na roça. A Paixão é vermelha – este é o nome de batismo do terceiro volume da coletânea de crônicas do blog – será lançado no domingo 16 de março, a partir das 15h. A farra será, mais uma vez, no bar Mamulengo, na praça do Arsenal, quase na frente da famosa torre de Malakoff. O livro vermelho tá cheio de novidades em relação aos anteriores. Pra começar, como organizamos a trilogia cronologicamente, esse volume inclui os textos publicados de 2011 a 2013. Deu pra entender ou carece de uma explicação mais detalhada? tricampeonato, duas subidas de série, só alegria. Além de um pequeno ensaio fotográfico do senhor Fred Jordão, retratista tricolor respeitadíssimo no mundo das lentes, cliques e filtros de Pernambuco, o prefácio é um luxo só. Tal qual no volume II, quando Homero Fonseca abriu os trabalhos e acabou escrevendo o melhor texto do livro, desta vez fomos buscar reforços em São Paul0. O cineasta Ugo Giorgetti (aquele mesmo do artigo no Estadão após o jogo contra o Betim) foi quem fez o texto de abertura. É mole? Outro dia eu conto essa história aqui. Quem quiser ainda terá a opção de comprar o livro com o CD da Minha Cobra encartado. Ah, os outros dois volumes estarão à venda também. Para encerrar a conversa, quem levar o convite impresso, ganha 10% de desconto no preço de capa. Quem não receber o convite de papel, basta fazer o download e imprimir esse que publicamos aqui nesta postagem que dá na mesma. Então, ficamos assim: Bar Mamulengo, 15h de domingo, 16 de março (o jogo do Santa será no sábado contra o Porto, ou seja, não vai atrapalhar nada). O preço do livro sem desconto é 50 contos.  ...

Leia Mais